eu poderia fazer analogias com a astrologia com a astronomia com a química analítica com a física quântica com o cálculo diferencial com a conjuntura política com o infinito das galáxias dos quasares das estrelas das constelações dos buracos negros daquela super nova com o universo e a ciência e o eterno que você foi.

mas não vou.

eu poderia te bombardear te ensaguentar te gritar te anunciar feito se anuncia um rei em visita te jogar num poço sem fundo mas cujo fundo sou eu te alarmar te precipitar te tocar te transpassar e te-todos-os-verbos que caracterizam essa imaterialidade que não te define mas te explica.

mas não vou.

eu poderia me erguer me bagunçar me mutilar emocionalmente me desamar me amar achando que te amarei assim poderia me fazer leve e me fazer tonelada me alcançar e te achar lá dentro me enxergar e ver tua sombra ali me irradiar e só emitir você.

mas não vou.

então

te liberto me liberto te amo (amei) mas me amo mais te aceito nessa imensidão que se criou entre nós e entre os nós de nós me reinvento me reergo me solto movimento partilho sinto voo e esqueço e supero toda essa galáxia de analogias e verbos e ações e sentimentos que podem até caber nesse texto mas que não couberam em mim e me explodiram pra anos-luz distantes daqui mas eu volto e me sinto e me torno e me desprendo e sou e me transbordo.

e me vou.

eu vivi você por um bom tempo, 
porém já não mais.

(Caio Tavares)


Wanjin GIM

 

–  Estão aqui as malas que você pediu.
– Vazias?
– Já conferi. Tirei a poeira pra você também. 
– Obrigada. Já separei quase tudo, mas não achei minha camiseta do Ringo.
– Eu lavei pra você, guardei junto com a minha do Lennon. Sabe, eu acho que vai ser bem dolorosa essa separação.
– Melhor assim. Sempre melhor assim. Lavou por que?
– Meu suor estava por toda parte. O Ringo passou a me vestir como segunda pele. 
– E pensar que há meses você não gostava dele.
– Certas coisas merecem um segundo olhar.
– Talvez eu vá embora e você volte a detesta-lo. Um primeiro olhar com afeto espontâneo é sempre mais confiável que um segundo olhar com afeto induzido. 
– Eu sinto como se isso fosse anti-natural. Tirar Lennon de Ringo mais uma vez.
– A última, provavelmente.
– Sinto como se separássemos algo que esteve predestinado a ser infindável em outra vida, mas o tempo se fez curto demais pra isso. O corte aqui está sendo quase mais brusco que lá. 
– Meu perfume…? 
– Guardei na primeira gaveta aí do seu lado. Vieram limpar a casa essa semana, tive medo que o vidro quebrasse e seu cheiro ficasse impregnado nas quatro paredes. 
– Eu tenho mais um vidro em casa, pode ficar com esse, sei que você gosta.
– Gosto do cheiro dele na sua pele. É diferente. Mas, obrigada.
– Só me faz um favor?
– Diga.
– Usa só o seu perfume bem forte por uma semana. Fica com o Ringo nesse período. Dorme todas as noites com ele e depois me devolve. E sem lavar dessa vez.
– Achei que você quisesse.
– Eu não quero criar novas lembranças suas. Isso não me faz querer apagar o resquício do que a gente foi. Talvez essa camiseta nem saiba mais sobreviver sem o seu suor.
– Eu te aviso quando você puder passar pra pegar de volta. Posso fazer uma última pergunta?
– …
– Por que na nossa última conversa escolhemos passar o tempo falando sobre camisetas?
– Porque Ringo e Lennon somos nós.

(Jessica Monte)


Apenas três quilômetros e meio nos separam e mesmo assim nossos corações nunca estiveram tão distantes. E é difícil porque toda vez que ele bate ele grita teu nome. E eu tenho que conviver com esse vazio que é preenchido pelos ecos do que a gente foi, você enchendo meu peito só para me deixar de novo. E dói cada vez mais, ao contrário do que diz o popular.

Dói porque eu não consigo mais conversar com você, quando foi numa dessas conversas em que eu me apaixonei. Dói porque eu, que não confio em ninguém, confiei em ti para me ver desconfiando de cada ação tua. Dói porque não quero te deixar enquanto sei que você já foi. Dói porque eu te amo, mas já não sinto amor aqui.
Talvez alguns tenham sido feitos uns para os outros mas não para ficarem juntos, e a gente insiste em fingir que não estamos separados.

Eu sinto a tua falta.

Você nunca vai sentir a minha porque eu nunca parto.

Enquanto isso, você me parte, um pedacinho a cada dia.


tudo que eu queria que você me dissesse

  1. guardo no coração todo o pigmento da tua íris de quando teus lábios se desenham da maneira mais fantasiosa naquele teu sorriso sutil. e é lindo.
  2. meu peito ainda dói de te lembrar machucada. as coisas têm tido um significado menor desde a última vez que você se agasalhou nos cobertores pra se desfazer da mágoa. tenho medo de ver teus rios, mas mergulho neles na mesma intensidade em que me afogo em ti.

III. gosto de vê-la falar sobre os astros e o cativo de quando cita a singularidade inabalável que existe nos buracos negros. é quase como ver nosso futuro filho contando do primeiro dia de aula. me quedo por inteiro e sempre anseio por mais.

  1. o teu formato tímido e singelo de quando clama, certa, de que sou uma boa pessoa. apaixono-me mais duas, três e quatro vezes por ti (porque sei que você se esforça pra enxergar todos meus detalhes inextricáveis).
  2. gosto do som da tua voz quando diz que me ama baixinho pelo telefone. quase como um segredo alinhado do qual só nós precisamos cultivar. você sabe, e é como marcelo cantarola: meu amor é teu. tão absurda verdade que precisa pertencer somente a nós.
  3. me orgulho de ti pela pessoa que és. pelo teu poder benevolente do perdão e por todas as vezes que abriste teus braços pra me acarinhar. e eu sinto tanto por precisares fazê-lo. sinto por nossas brigas diárias e pelas guerras cotidianas.

VII. gosto de quando fala dos mil e um futuros (em favorito [e perdoe o egoísmo] quando pertenço a eles) e das ideias aleatórias que te assombram às cinco da madrugada. gosto da tua agilidade em ser espontânea. do teu cativo quando as palavras se enrolam e a língua se prende por trás do entusiasmo. tudo é esplêndido e inigualável.

VIII. tenho um amor confuso por tuas tragédias porque sempre preciso atravessá-las pra te alcançar, e sei que dói. tem dias que acordo e desejo absorver cada resquício das lâminas e dos distúrbios que já te deceparam, então sinto em silêncio por não poder. a dor não merece te sentir e você nunca deveria tê-la conhecido. és grande e intensa demais para provar de um sentimento tão escasso e ressentido.

  1. não quero vê-la fragmentada ou mergulhando em poucos inteiros. quero te ajudar a se reconstruir para tê-la, se possível, plena. ilesa da maldade contínua que serpenteia nossas calçadas de brumas. e te amarei até que as cicatrizes se recomponham (para poderes amar-me na mesma expressividade).
  2. obrigado por me ensinar que amor não é um favor ou uma satisfação.
    amar é valor.

e eu sou extremamente afortunado por ter um amor tão valioso nos braços.

(Cláudia Feltrin)


existe uma teoria que diz que um dia o universo vai entrar em colapso por conta da atração gravitacional, e esse colapso faria o universo contrair-se, o tempo e espaço seriam invertidos e passaríamos a viver todas as coisas de trás pra frente. eu sofreria por ter te deixado ir embora entes de tudo, e nossa história passaria como um filme onde o começo é o final. e o dia em que te conheci seria o último dia que nos veríamos.

seria o ú l t i m o.

em um livro de ficção eu escreveria que nós nos encontraríamos em um estado onde seríamos duas pessoas atemporais e a teoria do big crunch não funcionaria para nós e

que no dia que nos conhecemos não seria nosso último.

porque nesse dia o universo entraria de novo em colapso e o big bang aconteceria, colocando o tempo e o espaço nos eixos

e viveríamos nossa história novamente.

eu escolheria minuciosamente algumas das mais de quarenta e cinco mil palavras que o dicionário tem e te diria antes de você dizer tchau. eu te beijaria antes de você falar qualquer coisa e passaria minha mão na sua nuca, nos seus cabelos, nos seus seios e na sua cintura. e não pararia até você me empurrar pra trás e dizer que acabou e que isso não vai mudar.

eu desejaria mais um colapso do universo e que voltássemos no tempo novamente

s o m e n t e m a i s u m a v e z .

mas você foi embora porque eu sempre desejei ter controle sobre as coisas incontroláveis.

e o que eu posso fazer agora?

a teoria da relatividade diz que o tempo é uma coisa variável

mas eu mal consigo pensar nas variáveis que nos trouxeram aqui.

mas eu queria controlar as coisas incontroláveis.

e isso

n e n h u m

colapso teria resolvido

caos que me fez agir assim.

(Larissa Zotti)


Você foi como a chegada do verão no inverno mais rigoroso da minha vida, eu estava tremendo de frio, com os dentes batendo e o seu calor me envolveu e me salvou. Eu achei que meu coração iria congelar, mas você me provou que ele ainda funcionava, ele bateu tão forte por você que por um momento eu achei ele fosse pegar fogo e incendiar todo o meu corpo. Você foi como se um bote tivesse chegado a tempo de salvar a Rose e o Jack do naufrágio do Titanic, você me tirou da porta de madeira que eu estava deitada em cima sob a água congelante. Você me estendeu a mão quando ninguém mais me via, ninguém mais me escutava. Você foi como uma brisa refrescante num calor de 40 graus. Por um momento os céus se abriram e eu ouvi o coral dos anjos anunciando a minha salvação, eu fui elevada a um plano de esperança, mas a minha queda foi pior do que a queda de Lúcifer quando foi expulso do paraíso, o meu impacto contra o chão foi tão forte que eu pude sentir todos os ossos do meu corpo estalarem com a batida, as asas que você tinha me dado foram arrancadas lentamente durante a queda, eu senti a dor de mil facas cortando o meu corpo quando você disse que ia embora, e cada um desses cortes sangra até hoje.

Eu olhei para você em busca de salvação.

Mas você estava salvando outro alguém.

(Cacau Stuart)


um

o conceito de parasitismo sempre me fascinou, tanto antes quanto depois que tomei a magnífica decisão de abandonar um futuro certo no mundo da biologia para seguir nada mais que uma afinidade nebulosa

dois

eu observava os trajetos criativos dos visgos abraçando as árvores da região dos lagos, e maravilhava-me com a noção que a natureza havia os feito assim, dependentes de um outro. algumas das primeiras formas de vida neste planeta foram parasitas, são bilhões e bilhões de anos crescendo prosperando evoluindo às custas daqueles “auto-suficientes” (os resquícios de biólogo não permitem que eu ignore a diferença entre autótrofos e heterótrofos, mas esta é uma outra discussão)

três

eu me perguntava se os visgos sabiam que estavam matando seu hospedeiro, e se isso, afinal, fazia alguma diferença

quatro, cinco

suponho que pode-se questionar o mesmo de pessoas.

seis

às vezes o limite entre querer e precisar é confuso. engraçado como às vezes a gente não percebe que tá machucando o outro e, ao mesmo passo, que tão machucando a gente

sete

então talvez a pergunta mais importante seja se podemos culpar as trepadeiras por sua natureza. a simples existência de parasitas já nos revela um fato fundamentalmente importante: funciona. era apenas outra das facetas excêntricas da vida

oito

o caro leitor ou leitora pode já ter uma opinião formada, e assim, já que estamos apontando dedos, eu acusaria os beija-flores de crueldade ainda maior que a dos visgos. eu os observava migrando de árvore a árvore, covardes demais para cravar os pés nos galhos espinhosos, e me perguntava com qual direito eles as abandonavam sem mais nem menos depois da audácia de beber de suas flores, deixando-as no escuro do tudo o que poderia ser. ridículo, ridículo, eu sei, afinal eles estavam apenas sendo fiéis à própria natureza

nove

me perguntei se as árvores sentiam falta dos beija-flores. Mas como sentir falta de algo que nunca foi seu? a árvore era um todo, o beija-flor era um mais, um mais passageiro, um mais querido, mas nada mais

dez

falta elas sentiam dos galhos caídos nas tempestades. cheguei então a conclusão de que as árvores sentiam saudade. era a diferença fundamental entre sentir saudade e sentir falta, uma sabedoria a qual apenas as árvores e os lusofalantes tinham o privilégio
eu sinto saudade.

onze, doze

interlúdio: no momento este que vos fala se força a recusar um cigarro a mais enquanto fita a madrugada da zona oeste carioca, ao que finalmente percebe o quão difícil é não escrever sobre aqueles do passado. você sabe, às vezes eu lembro, às vezes eu procuro máscaras conhecidas neste carnaval cinza. eu não vejo mais sentido em dedicar palavras a estranhos que se reduziram a um simples você, mas agora eu percebo fantasmas insistindo em assombrar minhas letras. saudades. mas como eu poderia pensar em passado quando escrevo sobre árvores? os segundos dias milênios dos homens nada significam aos troncos silenciosos. as árvores não conhecem nada além da morte, morte de flores para deixar frutas, morte de crianças para deixar adultos, morte de amores para deixar memórias. As transformações brotam de cadáveres. sou apenas humano, e o máximo que posso fazer é fechar as narinas ao fedor da putrefação, mesmo que seja por pouco tempo, e recomendo ao leitor ou leitora que faça o mesmo, ao menos por agora

treze

continuando. acho importante pensarmos se os beija-flores também sentiam saudades das árvores. com qual direito, se eram eles que as abandonavam? o mesmo valia para a culpa que os visgos vinham a sentir quando percebiam o quão danosos eram a seu hospedeiro

catorze

se manter fiel a própria natureza tinha um preço. e eu me perguntava o quanto estávamos dispostos a pagar

quinze

me vinha a imagem muito clara de ninhos secos repletos de pétalas e dedos finos abraçando troncos mortos, mosaicos estáticos de solidão. E o que é a solidão se não estática?

dezesseis

morte. faz sentido. tudo morre, e tudo sabe. tudo nasce na expectativa de acabar, ou então não existiria medo. mas eu me perguntava quem ficava para recolher os corpos

dezessete, dezoito

o beija-flor é cruel por abandonar a árvore após uma visita? o visgo é egoísta por precisar de um outro para sobreviver? não importa, suponho. de nada adianta meu julgamento inconvenientemente humano à realidade alheia. talvez bem e mal sejam apenas ilusões herdadas de um passado ainda em decomposição

dezenove

eu me lembro de encarar a loucura em todo o seu abismo, e sentir medo. eu lembro de um corpo caído nas ruas escuras de saquarema cantando blasfêmias a deus e ao sangue, berrando com os punhos contra um chão e uma mente feitos de vidro. e mais importante, eu lembro dos outros forasteitos que, como eu, foram covardes demais para ajudar. eu lembro de contar os carros motos bicicletas em meu desespero por controle, um dois seis nove dez doze quinze dezenove, dezenove beija-flores, demasiadamente eles mesmos ferir-se com algo além de sua natuteza. eu me lembro de odiá-los, e odiar a mim mesmo. eu lembro de vê-los crueis e sentir cruel. eu me lembro de querer ser mais, tão mais, e então me sentir tão menos. Nada

a árvore não se força a crescer mais galhos do que é capaz, o visgo não força sua independência por compaixão ao outro, o beija-flor não se força a pousar pela coragem do sangue dos espinhos contra os pés. A verdade que todos sabem e ninguém quer admitir é que somos limitados por nossa natureza. e o homem, ah, o homem mais do que todos, justamente pela prepotência de acreditar que temos o menor controle sobre a dádiva da mudança, mesquinhos o suficiente para querer ser o que não somos, nosso destino e nossa maldição

enfim, como bom semi-cientista, eu gostaria de tirar estas últimas linhas para dar algumas conclusões e quem sabe tomar coragem de escrever um pouco sobre mim. Eu. eu já me vi árvore visgo e beija-flor, já julguei outros árvore visgo e beija-flor: e sou, e somos, e não somos, nenhum de nós. somos humanos. amontoados orgulhosos de mitocôndrias e bicamadas fosfolipídicas e impulsos elétricos, presos em gaiolas pequenas demais para tudo o que poderíamos ser. eu vejo claramente. meu limbo, este labirinto traiçoeiro infestado de buracos negros o qual eu fui imprudente o suficiente de convidar outros sem nem ao menos ser capaz de chama-lo de lar. talvez este fosse o problema. animais mais inteligentes do que eu sabiam que de nada adiantava se debater contra as grades da jaula. os monstros daqui de dentro me apavoram além das palavras, mas são os únicos que tenho a menor chance de domar. coragem, sempre foi uma questão de coragem. e eu venho aprendendo. eu vi o pior no outro para conseguir ver o pior em mim. eu vejo os meus fantasmas com os olhos de um pai carinhoso. eu vejo as proporções místicas do meu labirinto e vejo possibilidade em seu desconhecido. eu vejo um jardim de cadáveres prestes a florescer, a criar raízes profundas e galhos espinhosos, a atrair os beija-flores e os visgos que o tempo quiser me dar. e quem sabe, quem sabe, um dia eu veja minhas paredes se movendo e minha gaiola se expandindo e meu universo se fundindo com o Seu

vai ficar tudo bem aqui dentro.

O tempo é criação dos homens, e seja por bondade ou obrigação, ele está do nosso lado.

(Rafael Bichels de Oliveira)


quando nos damos conta de que começamos a amar alguém, uma carteira, bolsa, ou uma grande mochila contendo medos cai em nossas mãos.
você tem medo de perdê-la
medo dela encontrar um novo amor da vida.
medo dela atravessar a ponte Rio-Niterói e por um acaso do destino, cair.
você tem medo dela não enxergar do mesmo jeito a beleza e a graça que você carrega.
você também tem medo de parar de enxergar isso.
você tem medo do amor esfriar, mas tem tanto medo que isso se torna um pensamento constante, mesmo você tendo certeza que seu sentimento é imenso.
muitas vezes eles são empacotados novamente e ignorados.
em outras horas são vistos a cada dia, encarados e sentidos. 
porém o que você e eu não nos lembramos muito, é que metade da responsabilidade desse amor é sua.
vocês tomam decisões
o mundo possui infinitas possibilidades de escolha
você escolheu cultivar um amor
você tem capacidade de ajudá-lo a crescer.
medos são intuitivos, mas deixa eu te contar uma coisa:
medos cegam
medos inibem a reconfortante sensação de estar nos braços de quem a gente ama, quando estamos refletindo sobre se não estaremos mais ali daqui a um ano, e porquê não estaremos mais ali.
não deixe o que é apenas uma entre milhares de possibilidades te afetar
não deixe o improvável te fazer chorar.
o amor é real e é pra ser tocado agora

é um presente.

(Larissa Carvalho)


eu estou escrevendo sobre o nosso fim.

depois de hoje vamos nos esbarrar pelos corredores da universidade e trocar olhares cansados de quem passou a madrugada toda estudando. você vai comprar o suco de abacaxi com hortelã como faz todos os dias e eu vou fumar um cigarro na escadaria. as pessoas vão nos perguntar se ainda estamos juntos e responderemos que não. alguns irão indagar o motivo e diremos que todas as coisas do mundo acabam e a gente acabou também. o assunto será imediatamente cortado e ficaremos pensando sobre como términos são dolorosos mas abrem portas para recomeços

nós sempre concordamos nisso.

desde o início sabíamos que havíamos sido feitos um para o outro, mas não feitos para durar. você dizia que era meu signo e eu dizia que era a vida. os astros trabalharam arduamente para que apenas as boas energias do universo cuidassem de nossas áureas. não funcionou. 

talvez tenham sido as forças cósmicas, ou

posição dos planetas, ou

talvez o nosso mapa astral nunca tenha realmente combinado,

nunca saberemos.

eu não te culpo. eu não me culpo. fomos bons o suficiente para nós enquanto estivemos juntos. fomos fortes. fomos persistentes. fomos honestos um com o outro e compreensivos o bastante para entender que, assim como todas as coisas do mundo, tínhamos chegado ao final do nosso ciclo. respeitamos o nosso espaço e seguimos adiante.

porque a vida não para e eu nem tive tempo de te contar que o amor é a única coisa do mundo que resiste ao fim.

e que paixão nunca foi amor,

e é por isso que nós não resistimos.

(Mariana Almeida)


cruzar seu caminho impediu minha explosão. te ter em meus braços foi como segurar um pedaço de algo inexplicavelmente divino. te ter era certo, mas nós dois sempre fomos rebeldes. sabíamos da nossa força, mas não estávamos preparados para uma guerra contra o mundo. i loved, and i loved, and i lost you.

você me contou que em 1976 o acdc teve que escolher um baixista com uma técnica não tão boa, mas bonito, pra imagem dos caras, e você me disse que teria que fazer o mesmo pro peso de beleza da banda não ficar todo sobre você, cê é extremamente pretensioso e arrogante, era só mais um pouco do seu charme, “faz parte do show”, você me disse. i loved, and i loved, and i lost you.

cê também me contou a história da sua tatuagem no braço e eu te achei a pessoa mais corajosa do mundo. não era só uma tatuagem, sua história de quase morte só me fez querer provar dessa audácia que cê tem desde que cê chegou nesse mundo, eu não sei do que provei, mas gostei. i loved, and i loved, and i lost you.

eu te disse que a minha vida tem um fenômeno bizarro: as músicas predestinam ela. cê achou graça e me chamou de amorzinho. não posso deixar de pensar que eu predestinei nossa destruição temporária (ou não) ao ouvir Quando Bate Aquela Saudade do Rubel e me esquecer daquele verso que fala “a gente fica longe e volta a namorar depois”, que se tornou meu presente. i loved, and i loved and i lost you.

no dia que cê me falou da escolha do acdc veio a promessa da aliança que você compraria esse mês, quando eu disse que eu precisava afastar os olhares das vadias de você. cê disse que era meu, que eu não tinha que me preocupar. e não tinha mesmo. i loved, and i loved, and i lost you.

depois cê me mostrou a somebody like you do 38 special e o que cê quis dizer com isso foi que seu coração tava nas minhas mãos e eu era a única que podia virar seu mundo de ponta cabeça. mas eu fiz carinho nele e te ajudei a colocar algumas coisas no lugar. isso é amar, sabe? cuidar enquanto você pode destruir. i loved, and i loved, and i lost you

cê me contou como ganhar uma briga na baixaria e das suas aventuras de adolescente audacioso que cê sempre foi. nesse dia eu te contei de uma aventura da criança esquisita que sempre fui e a gente se divertiu mesmo e eu até ignorei o frio que passava pelo meu casaco só pra te ver sorrir a cada palavra que eu falava. i loved, and i loved, and i lost you.

cê me pediu em namoro no dia do rock e disse que se a gente terminasse não ia ter como não lembrar, mesmo que por um segundo. eu te desejei um feliz dia. e um “aceito”. também te dei meu coração, acho que cê ficou com medo. i loved, and i loved, and i lost you.

num festival de bandas, antes da sua apresentação cê me desafiou a saber o nome da banda que tavam tocando. era Aerosmith, e eu não gostei tanto da voz do cara que tava cantando, você soube só de me olhar. cê riu porque sabia que eu odeio quem canta mal e acha que sabe alguma coisa. cê riu da minha pretensão arrogante que nem eu ri da sua. i loved, and i loved, and i lost you.

eu sabia que não devia ter te beijado no “i was crying when i met you, now im trying to forget you”. cara, eu sabia. im trying to forget you e ta difícil. eu que sempre cantei junto com o steven tyler troco de música toda vez que ele se arrisca a cantar perto de mim. parece que eu predestinei o nosso suposto fim, sabe? cê riu e ainda ta me devendo o dinheiro da aposta. i loved, and i loved, and i lost you.

no nosso último dia juntos você me desafiou de novo mas dessa vez era best of you. eu não deveria ter te dito isso, sabe? is someone getting the best of you? não quero saber. mas im your fool, e cê sabe, cara. cê sabe. i loved, and i loved, and i lost you.

eu não sei bem o que fazer. acho que vou cuidar desse amor. espero que o Rubel esteja certo, sabe? que a gente volte a namorar depois. meu sentimento ta esperando você se encontrar e perceber que o que falta em você sou eu, e talvez eu deixe esse texto Pra Você Dar O Nome. i loved, and i loved, but have i really lost you?

traduções: “i was crying when i met you, now im trying to forget you” – “eu estava chorando quando te conheci, agora estou tentando te esquecer”
“i loved and i loved and i lost you” – “eu amei e eu amei e eu te perdi”
“i loved and i loved but have i really lost you?” – “eu amei e eu amei, mas eu realmente te perdi?”

(Isabella Maluly)