Liability: flertando entre a metáfora e o fato

No final de fevereiro, eu estava com alguém. Até aí tudo bem, afinal de contas a gente engole as decepções amorosas e só segue. Pouco tempo depois, no entanto, Lorde lançava o segundo single do Melodrama,  Liability, em concomitante à minha sofrência-pós-término. A música falava sobre ser um peso, uma responsabilidade. Doeu, àquela altura, me ler e me ouvir, porque Lorde falava pra mim assim: “olha, eu também passo por isso, também me sinto uma âncora num barco chique, também estou aqui afundando em mágoa, frustração e insegurança”. Doía, ali, saber o óbvio, que por tantas vezes faço questão de esconder. Fazemos.

“Baby really hurt me
Crying in the taxi
He don’t wanna know me
Says he made the big mistake
Of dancing in my storm
Says it was poison”.

Todos nós, em algum momento, experienciamos o que Ella canta. Reajustados dentro das próprias questões de insegurança e relacionamentos, tentando avidamente não se mostrar demais, não dizer que sente-se muito, deixando escapar a luz que nos habita e que é tão importante, nossa mais completa humanidade. Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Amar, fala: “e amar a nossa falta mesma de amor”, como se soubesse, premeditadamente, que teríamos um longo caminho até podermos abrir o peito e gritar, mesmo para quem não quisesse ouvir: “estou sentindo, caramba! sentindo!” Mesmo que esteja doendo, com o coração estraçalhado, machucado e moído, deus, eu sinto. E a Lorde, sabendo desta pele exposta ao sol tece uma letra na nossa cabeça, cria uma metáfora, balbucia: estou dançando com a única pessoa que não arruinei, que não me desaponta em algum nível, que sabe de cor e salteado todas as minhas feridas e lacunas e solidões: eu mesma.

E saber que se é um fardo pode doer no orgulho ferido de quem não se considera bom o bastante. Três relações que fracassaram ou em algum momento tornaram-se impalatáveis; será que estou me autossabotando ao supor que a outra pessoa me acha pesada, sentimentalmente confusa, por vezes precipitada? Atire a primeira bad quem nunca se pegou imaginando o que o outro estaria a pensar dos nossos movimentos. Está durando demais, meu deus do céu será que a isso nomeiam amor, ele parou de me responder, em qual ponto me tornei este desastre social catastrófico e impotente? E a semiótica urge nesta música no seguinte sentido: nos diz que podemos tentar – e tentar é tão importante! – superar o trauma de dar errado antes mesmo da tentativa. Aquele texto que você não mandou pro seu ex-melhor-amigo; aquele papo descontruidão que você esqueceu de acender no colo do seu pai; aquele fica, por favor, fica, que travou na goela e não saiu por pouco. O cara que você queria tanto que ficasse e ele quase ficou, mas quase ainda é o não-concreto, o não-lugar-definido, o quase-existir.

Carregar um fardo, ou melhor, sê-lo, traz danos não só emocionais, como físicos também. Pessoas com crises de ansiedade generalizada e depressão, por exemplo, suprimem todos os traumas relacionados à imagem/às relações que constroem inflando-se para dentro. É como se dissessem tudo que gostariam de dizer só que para si próprios, ora escrevendo, ora andando em círculos pelo quarto, ora tentando se desvencilhar do autoflagelo quase que espontâneo de se acharem pouco, pequenos, facilmente substituíveis. Ser ou sentir-se um peso, então, está diretamente relacionado a doenças neuroatípicas, à medida que são sintomas recorrentes em adolescentes que têm alguma das patologias citadas acima. O negócio é tão surreal que a Organização Mundial da Saúde, OMS, diagnosticou que a depressão cresceu 18% em 10 anos ao redor do mundo; no Brasil, 5,8% têm a doença, uma das maiores médias do planeta. A ponta do iceberg que Lorde aponta pode parecer – e só parecer – descartável, pois é assim que começa: os sentimentos internalizados, a ausência do sentir-se confortável nas relações e no mundo; o vazio de tentar qualquer coisa; o abandono. E mais do que uma letra ritmada, liability traz à tona questões importantes no que tange quase que o primário do que é estar, de fato, dentro de um grupo social: perde-se pessoas, relações terminam, o social dá lugar ao emocional, vão-se os anéis e os dedos, às vezes, também.

Flertando entre a metáfora e o fato, liability é o termômetro do jovem pós-moderno. Não bastassem as inúmeras insuficiências que nos são apresentadas e injetadas ao longo da adolescência e começo da vida adulta – propagandas, ditos populares, sistemas opressores na ordem do gênero, da classe e da etnia -, ainda temos de lidar com todos esses demonstrativos no âmbito interno. Não é só sobre não ser suficiente para aquela pessoa, relação ou vida; trata-se do acúmulo emocional, daquele não-dar-certo estar imaculado em nós e nos deteriorar aos pouquinhos. Ficamos fechados, receosos e muitas vezes frios a qualquer outro movimento que não o do desprezo. Se alguém se esforça um pouquinho mais pra gostar da gente a gente já quer meter o pé, calcular todo o perímetro de como ir embora, formas de sabotar a missão. A música fala de como é difícil demais ser uma pessoa sentimental, exposta e disponível. Enquanto uma onda ultraconservadora ruma na direção oposta à do sentir, outros sentem não só à flor da pele, mas também do peito, pálpebra e coração. E a mensagem, o hino, a poesia e tudo o que se pode retirar dessa ode àqueles que ficam pela estrada – pelo excesso de bagagem emocional -, nada mais é de que a insegurança, o medo e a pequeneza não pode, em suprassumo, nos dominar. Que precisa-se, urgentemente, descobrir uma maneira de gritar, berrar e dizer: estou aqui! Em carne, osso e erupção.

Liability é cirúrgica ao passo que traz à cena pop da música tudo aquilo que a geração dos desconfortáveis, tristes e deprimidos, por vezes, não consegue dizer. É o hino de uma geração de pessoas que há muito tempo têm se contentado em viver sozinhas (e se for por vontade própria, não há problema algum! mesmo!), sob o jugo de relações fraudulentas, que sugaram tanto sentimento, tato e vontade de se entregar, que parece não haver outra alternativa senão a de cantar o refrão da música:

“They say, “You’re a little much for me
You’re a liability
You’re a little much for me”
So they pull back, make other plans
I understand, I’m a liability
Get you wild, make you leave.
I’m a little much for
E-a-na-na-na, everyone.”

 

No entanto, há uma luz no fim do túnel, da avenida, das relações afetivas e amorosas que construímos. É a luz de reivindicar nosso direito pleno da existência: sentir. E o sentir pesaroso, com culpas e fardos, construído sob espectros sociais e expectativas descomunais, aliado à maneira como os outros nos veem e à forma como nos portamos debaixo deste guarda-chuva social feito de traumas, medos e inseguranças é o que pari no mundo músicas tão incandescentes e faiscantes como liability que, aqui, deixa de ser apenas uma letra composta e interpretada por Lorde; tornando-se o grito mais real de um grupo de pessoas que às vezes se olham no espelho e se enxergam demais. Em entrevista ao canal 60minutes9, Ella afirma que muitos jovens chegam nela dizendo que a música é um reflexo do que eles sentem no colégio ou no primeiro dia da faculdade; que a canção traz uma sensação de pertencimento ao permitir a relação entre a artista e seu público. E quando questionada sobre servir de modelo a esses jovens, Lorde responde que “sim, entende que pode servir como símbolo, mas que quer fazer com que eles se sintam confortáveis e orgulhosos de si próprios, sem que percam a visão humanizada sobre ela”.

Fonte: Tumblr

Por fim, não é apenas Lorde que advoga em torno da naturalização da humanidade em sua expressão maior – produção da arte, seja ela musical, sensorial, realística. Todos nós, ao vivenciarmos situações dolorosas, podemos tomar para si o peso e a delícia de ser o que se é. Entre a metáfora da música, que argumenta sobre processos mais densos e, por vezes, patológicos; e o fato de que estamos tentando nosso melhor em não reproduzir o trauma e a insegurança (pelo menos minimizá-los) pelas próximas relações, existem pessoas – eu, você – pelo caminho e há o sol, que surge tanto no final da música quanto no final deste texto para lembrar que ainda somos capazes de emanar e reagir às mais diversas formas de abandono. Alguns, fecham as cortinas de casa para que ele não entre; outros, chegam bem pertinho, sinalizando que vale a pena se arriscar pelo sentir – e o peso, talvez, possa sumir com ele assim que o entardecer deitar sobre o céu:

“They’re gonna watch me
Disappear into the sun
You’re all gonna watch me
Disappear into the sun.”