a poesia não compensa o tanto faz. nem as bolas de teu olho brilhando, nem teu jeito meio manso meio vagabundo, nem aquela mania de esfregar seu dedão direito contra o meu durante um beijo preencherão as arestas de nosso círculo amoroso. nem aquele dia em que a gente riu como se nossos pais não estivessem à beira do abismo, tu lembra? a gente sentou debaixo d’uma árvore florida e um passarinho cantava pra gente se aninhar nos braços um do outro. nem mesmo aquele momento em que parecia que os planetas pararam em um engarrafamento para olhar o instante exato em que a menor estrela do céu erodiu num estalo de sua boca de adeus na minha (que pedia fica, se demora, não vai não, eu te quero comigo)… se minhas lembranças tivessem o poder de te rematerializar, eu recusaria. porque, tu sabe, sequer estivemos sinceramente entrelaçados além do corpo. eu te compunha poesias, tu as comia com mil pupilas dilatadas, em transe, na transa, no gozo e no suspiro profundo de alívio de dor de alma. mas me conservar afetuosamente em fotografia interior? nem mesmo quando eu expus minha pele preta manchada de noite à tua nudez, nem mesmo quando eu te esquivei por todos os abusos cometidos contra mim, nem mesmo quando tudo o que minhas mãos faziam era acarinhar teu coração. mirei fundo tuas íris e disse que sucessivas traições aos laços são imperdoáveis. uma, duas, quem sabe, mas cotidianamente? decorei de cor em cor os fios de cabelo da tua barba, a mudança da rouquidão de teu timbre à medida que o dia passa; vi panoramicamente todas as estampas de suas camisas, todas lindas e moldadas de arcos-íris; sei (e muito bem) diferenciar tua risada sarcástica da de alegria; no momento em que tu mente, o canto esquerdo superior de teus lábios treme; o nome do seu primeiro cachorro foi cartola e ele morreu atropelado em 1998. a vida não é isso, sabe… não é esse esquecimento absoluto de cenas reais. um deus senta logo ao nosso lado para dizer: o amor é o único verso que leva embora a indiferença de um poema. a vida é abraçar-se mutuamente sob a nobreza de uma formiga. a vida é tomar banho de pé descalço, é unha encravada, é cárie no dente, é dor de estômago, é sentir dor de barriga pela gargalhada incontrolável, é ser seguido do ponto de ônibus até a porta de casa por um gato que sabe que não será adotado, são as cócegas feitas pela avó no dia do teu aniversário. a vida é um ponto pra oxum, silêncios pra buda, sino pra ganesha, louvores a yhvh. a vida é um homem que dorme na escadaria da sé e divide o marmitex que a igreja entrega uma vez por semana com seu bicho de estimação. a vida é a passagem das águas no araguaia. a vida é a divisa entre áfrica e europa. a vida é um disco dos tincoãs. a vida me aconteceu primeiramente quando senti uma onda boa entrando em meu peito ao som de teu nome. através de tuas músicas preferidas eu vi o mundo, eu vi as gentes, eu vi as espécies da caatinga nascerem verdes-cruas. todos os idiomas contemplam o amor que eu senti por você. que sinto. pelo que vivemos, pelo que viveríamos, mas, principalmente, pelo que não vivemos. pelo basta, pelo rompimento, pela humildade de reconhecer o erro e tomar a distância necessária. recomeçar, reescrever a história de pessoas que, apesar de se gostarem desequilibradamente, quiseram, mesmo que por um segundo, compartilhar o cheiro do cangote. e é isso. nem toda grandeza dos reis nigerianos pode sustentar o desgaste de algo tão profundamente raso. navegar em poça d’água é para pequenas embarcações. nós não. nós entregamos as lágrimas ao calor do sol. nós deixamos a água evaporar. nós chovemos. nós encharcamos a plantação para fazer brotarem as ervas. criamos raízes, caules, folhas; fazemos a seiva e dela mesma nos alimentamos. somos as pessoas certas em relacionamentos desproporcionais. somos as pessoas erradas em encontros seguros. somos essas reticências interrogativas que, embora vacilantemente, mistificam cada ressoar de palavra: a eternidade, a quem pertence?

 

Zainne Lima da Silva é mulher preta, criada na periferia de Taboão da Serra, estuda Letras na USP, faz parte do Coletivo Preto Cláudia Silva Ferreira e da Coletiva Entre Irmãs. Escreve desde pirralhinha. E também é um amorzinho apesar do mapa astral.


Nasci e deram a notícia: mulher

Eu nasci. Nasci e deram a notícia: mulher. Quando dei por mim, gostei de ser. Mas algo parecia não se encaixar. Me fizeram fêmea. Me guiaram com voz mansa: – vem por aqui. Cruzei os braços e não fui. A voz se metamorfoseou num grito de brutalidade. Logo me disseram que era do “ser homem” a força bruta. Fui entendendo e não me encaixei. Queriam de mim a subserviência de Amélia, mas fui militância de Pagu. Desviei do caminho proposto. Descobri, que mesmo quando parecia clara a resposta, ela era imposta. Desfeita a venda que me punha cega, gritei: Eu sou Simone de Beuvoir! Eu sou Frida Kahlo! Eu sou a moça que teve sua privacidade violada. Eu sou a menina que é julgada pela sociedade por se relacionar com muitos homens. Eu sou a noiva que não casou virgem. Eu sou a mulher que é chamada de frígida por ainda ser virgem. Eu sou a fã que pediu pra ser estuprada pelo ídolo porque entrou sozinha na sua van. Eu sou a estudante barrada na porta da universidade por estar com um vestido curto demais. Eu sou a adolescente gorda que sofre de depressão por não estar dentro do padrão de beleza. Eu sou a menina que morre de anorexia buscando ser aceita. Eu sou a moça que ganha um salário inferior ao homem que exercita a mesma tarefa que ela. Eu sou a moça que mente sobre o que faz para não receber olhares de reprovação. Eu sou a moça que ouve “gostosa”, “que delícia”, “quero te foder” todos os dias na rua. Eu sou a transsexual morta a facadas e jogada num terreno baldio. Eu sou a menina que perdeu a virgindade com o rapaz que só queria contar vantagem por isso. Eu sou a mulher periférica que morre numa tentativa de aborto. Eu sou a prostituta que é violentada por “não ter um trabalho digno”. Eu sou a moça esmagada pela baixa auto estima. Eu sou a “menina para se divertir” e não “menina pra casar”. Eu sou a criança molestada pelo pai, pelo tio, pelo padrasto. Eu sou um número nas estatísticas de violência doméstica. Eu sou a mulher traída que mereceu, porque não cuidou do que tinha. Eu sou a amante que tem toda a culpa, porque seduziu o homem indefeso. Eu sou a cinquentona que “ficou pra titia”. Eu sou a lésbica que precisa de cura e de um homem de verdade. Eu sou a esposa que lava, passa, cozinha e cuida dos filhos. Eu sou Maria da Penha. Eu sou Chiquinha Gonzaga. Eu sou Nise da Silveira. Eu sou Olga Benário. Eu sou mulher. Eu sou livre. Eu sou minha. E deixo aqui um último recado: Do nascimento até morrer, mulher é RESISTÊNCIA. E a gente já aprendeu a gritar.

(Eva Cidrack)


caminhar por essa cidade tão aconchegante

caminhar por essa cidade tão aconchegante e caótica quanto você é como folhear o passado e tuas inúmeras versões: ainda sou capaz de sentir as gotas de chuva quando nos beijamos na esquina de casa ou o desconforto palpável e cortante na sala de estar.

é que nossa leveza sempre consistiu na falta de amor e na presença silenciosa de algo mais doce, uma espécie de cuidado que não se assume e de carinho que parece pisar em ovos – meu bem, perdoa o desastre que sou e o meu desejo escandaloso de dançar em qualquer superfície.

é que nossa verdade sempre consistiu em um pacto mudo de eternidade finita e precoce, um acordo efêmero entre singulares que forçam encaixes plurais. é que minha verdade sempre se opôs a sua e eu fui ensinada a não me importar com gaiolas sem trancas.

e embora os opostos se atraiam, eles jamais ousam permanecer: nem o mais feroz dos oceanos é capaz de domar as chamas e a inconstância do fogo. e, meu bem, eu me permiti transbordar, constante mar morto cristalino onde tudo flutua, apenas pelo prazer de te observar nadar. foi só então que percebi que tu é um pássaro próprio do deserto do atacama.

(as madrugadas trazem o lembrete oportuno de que a coisa mais certa que nos aconteceu foi termos dado errado. não dou ouvidos.)

Manuela Teteo


quase não te contei quem eu era

quase não te contei quem eu era, os lugares que queria conhecer, que meu pai tem um passado ruim e que eu acreditava em deus. mas sua família também não era perfeita e você tinha sonhos e um gosto musical parecido com o meu; disse que deus é uma ilusão e não temeu que eu ficasse brava porque era o que você achava independente de mim. isso foi maravilhoso, então eu contei.

quase não te mandei as fotos de quando eu era pequena, das minhas meias bregas e estampadas, da vista do quarto do meu irmão e da minha avó gargalhando comigo nas noites de sábado. mas você não fez rodeios e quis que eu te visse de um jeito real. tive a sensação de que a gente já se conhecia há anos e gostei de saber que você concordava, por isso eu mandei.

quase não te liguei pra perguntar se estava tudo bem, aonde você se via daqui a cinco anos ou conversar sobre qualquer bobagem da TV. mas se até o meu nome soava bonito quando saía de seus lábios, imagine quando você disse pela primeira vez que me amava?! foi intenso… desde então, liguei muitas vezes.

quase não te disse que respiro poesia e que adoro o seu interesse por história; que detesto ter ciúmes da sua amiga do rio de janeiro e que seria ótimo experimentar o cuscuz que você faz no almoço. mas foi por causa das palavras que nos encontramos e comida nordestina tem o seu charme. aí, acabei dizendo.

quase não te enviei os meus pedidos de desculpa, sorrisos mais abertos, piadas fora de hora e defeitos que eu preferiria não ter. mas, como de costume, eu errei e ser orgulhosa não é o meu forte. além disso, uma hora ou outra você se depararia com minha implicância, precipitação e egoísmo. é, fiz bem ao enviar.

por fim, quase não te amei. mas antes que eu pudesse fechar a porta do meu coração, você se aninhou em mim feito passarinho manso que só quer descansar longe dessa tempestade. e eu que nunca fui casa de ninguém, percebi que quando se abriga o outro, é você quem ganha um teto pra poder morar. e inevitavelmente, eu te amei…

(Vestígios de mim/Maíra Viana)


você nunca me feriu

09 de junho de 2017.

você nunca me feriu

já faz nove meses que por um acaso, Deus, ou ironia do destino você entrou na minha vida, e tudo o que vivemos foi tão mágico e lindo que desejaria que tu fosse eterna porque todo tempo é pouco pra estar com você.

quando éramos crianças, logo ao começar brincar com quebra-cabeça, ja nos vem a ansiedade de chegar no momento mais esperado que é, e sempre vai ser o de encaixar a última peça, justamente porque é a mais importante, a que completa a coisa toda, a que te deixa com a sensaçao de dever cumprido e aquela felicidade enorme por ter conseguido, sabe? a que não deixa vazio e o que eu quero te dizer com isso é que no quebra-cabeça da minha vida, a peça mais importante é você. é tudo, tudo o que eu precisava, você é a minha pessoa, é quem me faz transbordar sentimentos bons, e ter você é um grande privilégio.

mas hoje você me feriu

você me feriu sem saber e meu peito se tornou uma Israel devastada, eu sou o que restou depois de uma tempestade, o que restou de um tornado, eu sou o que restou depois de um terremoto grau 9,5 na escala ritcher, ou de uma outra tragedédia qualquer.

hoje, só hoje, o que me resta é ser ruína, porque você me destruiu.

era 02:57 da madrugada, tive um pesadelo horrível e acordei assustada, com medo e chorando, Imediatamente eu te liguei e tu me perguntou o que havia acontecido e eu evitei a resposta. Deus, eu evitei porque não queria chorar ainda mais, eu não posso falhar em te fazer feliz, mas eu evitei te dizer porque você me destruiu.

“eu queria mais números do que eu provavelmente vou ter” disse Hazel Grace para Augustos Waters no dia do seu elogio fúnebre.

e sem saber você me destruiu.

me destruiu porque eu queria mais números do que provavelmente você vai ter e eu odeio viver com a sensação de que eu nunca vou te ver.

e se eu pudesse pedir somente uma coisa para que se tornasse realidade eu pediria o dom da cura para que como em um passo de mágica eu te fizesse sarar.

certa vez eu disse que você era uma bomba-relógio, não sei porque isso saiu de mim tão repentinamente e eu te magoei com o que disse, eu sei. mas eu não estava enganada, e você nem sabe disso.

hoje descobri que apareceu outro tumor em ti, o médico disse que fez tudo o que estava no alcance dele mas que nada adiantaria, então optou por te dizer que você está curada mas não é verdade, meu bem… a medicina te desenganou mas eu ainda acredito em milagres.

hoje eu me permito sentir todo sentimento reprimido que estava guardado aqui no meu peito há muito tempo, e eu rezo com fé para que as lágrimas sejam o suficiente pra expurgar toda a sujeira do mundo e expelir toda dor que sufoca e massacra o meu peito pela injustiça e raiva que eu to sentindo por saber que a qualquer hora eu posso te perder.

hoje eu me permito ser covarde, ninguém é forte o tempo todo e você sabe, me perdoa por que hoje, só por hoje eu não irei te dizer a verdade.

perdoa por não te dizer o motivo real de encerrar com o seu tratamento, remédios e quimioterapias, mas você está feliz agora e eu não vou estragar com tudo isso. você não merece viver calculando se vai estar viva daqui uma semana, um dia, ou uma hora, quando chegar o tempo você vai saber e eu ainda estarei com você até o fim, eu prometo.

tu me disse que o leo perguntou de mim quando você estava fazendo café e de repente você sentiu um aperto no coração, daí me perguntou inúmeras vezes se eu estou bem e eu menti, eu sei que você sabe dos meus sentimentos, assim como eu sei dos seus sentimentos e que a nossa conexão quase me impede de te esconder o vazio, tristeza e medos, mas me deixa tentar mentir, só hoje, você merece ser feliz e por ti me vestirei de alegria todos os dias só pra te ver sorrir.

nós já tivemos diversas conversas e eu pude compreender que amar também é sobre aceitar partidas.

e eu nunca saberei como retribuir todo amor, felicidade, esperança e uma infinidade de sentimentos bons -apesar de tantos sentimentos ruins também- que eu sinto por você, mesmo que de tão longe ter coexistido comigo.

você me destruiu, eu sei disso, mas
em algum capítulo de Greys Anatomy, Derek diz a seguinte frase para Meredith Grey “Não seria amor se não destruisse” certa vez eu também disse que o amor é como uma bomba-relogio pronta pra explodir no peito de alguem e você é a minha, e eu te amo por isso.

e eu não vejo melhor maneira de terminar esse texto se não citando outra frase do filme A culpa é das estrelas
“Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, mas é possível escolher quem vai feri-lo.”

eu escolhi você

e aceito as minhas escolhas.

(Rebecca Bitencourt)


eu sempre fui a pessoa que ficava

eu nunca fui muito boa em lidar com despedidas.
eu sempre fui a pessoa que ficava.
sempre fui aquela que ficava mesmo quando a outra pessoa já tinha ido.
eu ficava mesmo em meio as dúvidas
em meio as confusões 
em meio as tristezas
ficava mesmo quando eu não tinha forças para ficar.
mas eu ficava.
a dor da despedida sempre foi algo que mexeu comigo.
por isso eu nunca tive coragem de ir embora da vida de alguém. quem dera se todos que passaram por aqui tivessem tido esse mesmo pensamento.
durante alguns meses eu me perguntei o porquê das pessoas não ficarem.
será que eu não sou um bom lugar?

eu sou um bom lugar.
eu sempre fui e sempre vou ser um bom lugar.
confesso que entender isso foi uma das tarefas mais difíceis que eu tive que aprender.

quando você chegou, eu tinha certeza que você ficaria pra sempre.
você chegou quando eu estava aprendendo a me reaprender.
eu lembro que você chegou todo machucado e cheio de cicatrizes que a vida fez.
eu esqueci das minhas feridas para poder te ajudar a cuidar de cada ferida sua.
e você foi ficando.
suas feridas já estavam quase cicatrizadas.
você ficou enquanto foi bom.
pra você.

não por mim e nem por nós.
somente pra você.
não te julgo por isso. 
mas quero te lembrar que: ainda sou um bom lugar. isso não significa que eu te queira de volta.
não quero.

depois de anos sendo a pessoa que ficava, eu decidi ir embora e essa foi uma das maiores e mais bonitas provas de amor que eu poderia ter dado a alguém.
eu decidi ir não por falta de amor.

hoje a casa está em ordem novamente.
está limpa e organizada.
hoje você não faz mais parte dela.
nunca pensei que diria mas sou grata por você não me pertencer mais.

(Yannka Lins)


tá tudo bem se você quiser voltar

tá tudo bem se você quiser voltar.
eu te aceito de volta.

aceito ouvir seus desabafos.
aceito te acompanhar nas festas.
aceito ver seus filmes sem graça.
aceito você com todos os seus defeitos,
porque ninguém é perfeito.

e eu sei que mesmo tendo esse jeito de quem suporta tudo, você sente. 
você sente quando o seu mundo pesa e sua única opção é ser forte.
não só por você, mas pelas pessoas que estão a sua volta.

as suas fraquezas e seus medos ainda estão aqui comigo, 
e ninguém vai saber de nada.
suas histórias estão bem guardadas.

eu não guardo nenhum sentimento ruim dentro de mim, 
quem faz morada aqui é só a saudade
e ela me acorda a noite só pra perguntar quando você vai suprir tudo isso.

vou falar de novo: 
tá tudo bem se você quiser voltar. 
eu não vou pedir um tempo pra pensar,
e nem desejar que você passe por tudo isso.
porque as coisas realmente não voltam a ser como eram antes, mas acredito que podem ser melhores.

e a minha fé é do tamanho do seu orgulho.
enquanto você ignora certas coisas por medo, 
eu peço pra Deus
pros anjos
pro universo
pra que por um dia, pelo menos um dia, você coloque seu orgulho num cantinho, 
e se permita sentir.

eu to te esperando pra contar que você foi a coisa mais linda que me aconteceu,
e que eu te aceito de volta.
porque seu caos, 
ainda é meu cais.


tu sempre foi vendaval

tu sempre foi vendaval e eu furacão e por um segundo eu pensei que a simetria dos nossos danos poderia formar o arco íris depois de um dia de chuva
mas tu é raio e eu sou trovão e essa tempestade que se forma do nosso encontro causa devastação nos campos que poderiam florescer
tu é tão vazio e eu sou desabitada porque eu não sou e nunca fui um bom lar (e é por isso que você não conseguiu me povoar com todo o teu caos)
ninguém me habita porque eu já sou intensa demais pro meu próprio corpo
com melancolia suficiente pra 3 ou 4 vidas
eu sou inóspita e tudo bem
(eu só preciso ser um bom habitat pra mim.)
tu vai encontrar morada em alguém, 
que possa abrir as portas e te acolher com uma xícara de chá e um cobertor quentinho.
essa pessoa vai te refugiar e dizer que esperou tanto tempo pela tua chegada e você vai sorrir daquele jeito tímido que você faz quando ama.
alguém vai te dar tudo que tu precisa pra se reerguer e virar paz-
mas esse alguém não sou eu
porque tu tá rompido
e eu sou despedaçada
e duas pessoas quebradas não se completam-

elas só se destroem cada vez mais.

(Anneliese Murara)


tentaram me tornar vítima do que carrego dentro do meu peito

TW: linguagem pesada

tentaram me tornar vítima do que carrego dentro do meu peito.

tentaram apontar o revólver pra mim com as minhas próprias mãos, mas eles não perceberam que eu descarreguei a arma e que isso não é um jogo de roleta russa.

eles insistem, eu resisto.

eu não devo me tornar vítima do que sou. eu não devo ser coagida ou ameaçada por aquilo que grita e me esmaga de dentro pra fora porque precisa sair.

eu preciso sair.

eu vivo na jaula do que devo ser e acabo não sendo ninguém.
sou acabado, não caibo.

mas, ainda assim, eu não vou me ajoelhar perante às suas palavras porque a única coisa que eu deveria ser livre é da verborragia que rasga os meus ouvidos e dilacera tudo aquilo que brilha em mim.

eu não vou fechar as cortinas porque a minha luz incomoda os teus olhos.

o sol não é para todos.

eu era pra você, mas as minhas coisas já estão lá fora.

então, eu vou e levo tudo.

até o que não fui ainda.

(Gabriela Gama)


não é só pela maneira que a gente se olha

não é só pela maneira que a gente se olha
não é só pela maneira que a minha pele implora
grita
desolada 
pelo seu toque
não é só pela maneira que eu me sinto quando a gente se olha 
não
não é só pela maneira que você impregnou cada espaço da minha vida 
minha casa 
nas notas que você escreveu no meu teclado pra se guiar 
no seu nome estampado na minha capa de celular 
na minha cabeça 
no meu peito:
dentro dele 
e fora 
onde você traçou histórias com sua língua 
e mesmo agora 
todo esse tempo depois 
ainda posso ver 
e sentir 
não é 
não é por passar pelo 1º andar
e lembrar 
daquele dia na academia 
não é por você ter transformado cada canto em que passou 
não é por você ter curado cada ferida que tocou (menos a que abriu) 
rasgou meu peito 
preencheu cada vazio 
e pra você foi pouco
é pouco 
eu não me importaria de passar o resto da minha vida percorrendo cada canto do seu corpo com os meus dedos
não me importaria de ver todos os dias sua pele arrepiada 
sua respiração mudando com cada toque profano
e olha, Érre 
eu não me importo de receber de você 1/10 do que eu gostaria 
porque eu sei, Érre 
que é tudo que você pode me dar agora 
mas eu também sei
que um dia 
e esse dia pode demorar 
não sei se falo de 6 meses ou 10 anos
um dia você vai acordar 
e vai ser capaz de sentir 
você vai experimentar 
pela primeira vez 
tudo que eu venho sentindo 
todos os dias 
até os piores 
desde que eu percebi que você era diferente do resto 
não vou dizer que lembro do momento exato 
porque não lembro 
mas no começo eu me apavorei 
e eu não entendia 
como uma só pessoa 
uma pessoa como qualquer outra 
conseguia me fazer tão completa
um dia você vai sentir 
e aqui 
a porta vai estar aberta 
e todos vão assistir à combustão causada pelo encontro inevitável de dois astros 
você sabe que vão.
tô esperando.

(Isabel)