a todos que escrevem e dançam no escuro

Se Lorde tivesse vivido à época de Fernando Pessoa, com certeza teria discordado dele quando ele afirmava que todo poeta é um fingidor. Isso porque, em sua música Writer in The Dark, Ella narra uma situação muito comum entre nós, jovens sentimentais da pós-modernidade. Trata-se do eterno vício das relações que se quebram em segundas-feiras paulistanas ou quartas-feiras quentíssimas do Rio de Janeiro; o cenário não importa: estamos, alguns de nós, vivenciando a dor e a adrenalina de sermos deixados para trás enquanto o outro caminha rumo a um futuro com alguém, quem sabe melhor e que demande menos. A essa altura, todo escritor é um potencial humano na mira de sua mais completa verdade, a do abandono.

A música começa explicitando um momento de perda. Lorde diz: “Break the news/you’re walking out/To be a good man for someone else/Sorry, I was never good like you”, e coloca sobre nossos corações a empatia da compreensão. Explico: o pleonasmo faz-se necessário pois ao ouvir a música, todos os que já foram deixados de lado, trocados ou avulsos nesse jogo do amor, compreendem e se sentem acalentados pela normatividade com a qual a cantora trata o assunto. Neste aspecto, Ella nos aponta que é natural a perda, o descontato e o desamor. E a gente passa a entender o significado da música de maneira ainda mais torrencial quando olhamos para nós mesmos e percebemos que a vida é sobre tentar e cair, mas tentar de novo e tentar uma vez mais. Guimarães Rosa, por sinal, já teria escrito algo similar: a vida rasga, emenda e rasga novamente. O problema é que estamos frágeis demais para tantos rasgos assim.

Lorde tem 20 agora. 20 e com uma carga emocional condensada em músicas fortes, líricas e que costuram o tecido social tão frágil que é o do relacionar-se. Dizer a alguém sobre sua fragilidade, no entanto, não é tão fácil quanto parece. Ao abrir a boca e cantar que há alguém melhor que ela pela qual seu amado se apaixonou, e conseguir extrair desse fato uma metáfora sobre seguir – e, mais, sobre seguir consigo própria, em seu próprio universo -, Lorde revela que não é apenas a costura que dói; mas que a fragilidade da ruptura talvez seja motivo para adensar a pele e torná-la mais forte. Na mesma medida em que canta e fala sobre a dor de se perceber consigo própria, a artista ergue a bandeira a que todos os escritores (exceto, talvez, Fernando Pessoa?) estão sujeitos: a experiência serviu para que os textos surgissem da necessidade de estender um pouco mais a compreensão sobre aquilo que, por vezes, termina e não volta nunca. Escritores, por sua vez, amam escrever sobre pessoas que não voltam.

E a música segue falando de abandono (o natural, às vezes corriqueiro e quase que instantâneo para nossa geração, cercada de tantas maneiras pífias de dizer a alguém que não se quer mais, não dá, não vale a pena) até que Lorde encontra-se dançando em si mesma após a desilusão. É nessa passagem de tempo onde percebe-se o poder que o escritor, enquanto agente, e a escrita, enquanto ferramenta, possuem. Este poder não vem só do fator regenerativo que existe no colocar para fora os sentimentos. É, similarmente, sobre escrever ter o papel metafórico de ser o espelho após um trauma muito profundo. Quando olha-se para dentro e tenta-se juntar os cacos, as lembranças e as palavras também. A dor da partida é diferente para cada pessoa, mas ela é universal no sentido de que todos nós já estivemos no olho do furacão de achar que em algum momento (breve? quem sabe) o inevitável aconteceria. De repente, não me liga mais, eu não quero ouvir a sua voz, tenta me esquecer, por favor, eu imploro.

A música, bem mais do que três estrofes acompanhadas de um refrão pesado e necessário, traça um paralelo (e, talvez, seja ele próprio) entre os que foram embora por alguma razão e os que ficaram. E, mais precisamente, sobre os que ficaram tanto que acabaram entrando ainda mais em si próprios. As palavras que Lorde dedilha não são só efervescentes e enervantes, elas funcionam quase como uma acupuntura: vai doer a mensagem e todo o caminho, no entanto é preciso. E as palavras, aqui, são material e fazem parte do imaginário de todos aqueles que escrevem, não importa se profissional ou amadoramente. A letra celebra o jeito como melhor nos entendemos e procuramos tatear as relações, formas e sentimentos. É a escrita que tem papel fundamental nessa relação entre sentir e fazer sentir.

O amor acaba, a todo momento, em todo instante, já escreveu Paulo Mendes Campos. De terças-feiras hostis às quintas-feiras descomunais, em alguma parte do caminho descobriremos que não deveríamos ter colocado aquela pessoa no pedestal. A própria Lorde afirma isso ao falar da música: “não se trata de um documento histórico, uma música policial ou jornalismo. Eu sou escritora. Trata-se de mim, do sentimento de culpa e de, às vezes, você dizer “oh, deus, eu não deveria ter imortalizado tal pessoa”. Esta percepção, no entanto, pode surgir quando o, agora, ex-amado, caminha em direção a outro lugar que não àquele que vocês previamente construíram. Que pode acontecer no instante agora, enquanto você lê esse texto e se depara com a realidade frígida de que o amor não faz força para se encaixar em teses sobre como deve-se ou não sentir, ir embora ou permanecer. Porque escritores estão o tempo todo se debruçando em cima de eventuais catástrofes emocionais, que concernem à alma, ao sangue, coração. E porque, para aqueles que não escrevem, ainda resta observar e tentar assimilar a partida de quem não conseguiu ficar e estender a pele. Parece poético, mas não é. Não existe tanta poesia assim em apreciar alguém que se ama muito indo para uma esfera convergente da nossa.

Lorde segue, enfim, para um refrão avassalador e para uma autodescoberta de si mesma enquanto o fim é eminente e desafiador. No dia-a-dia das relações afetivas ou românticas, o grande xis da questão é tentar encontrar um equilíbrio entre a sensação de perda e o sentimento de seguir. Aqui, a neozelandesa explicita que não só conseguiu assimilar o fim como porta para um caminho interno, mas também como lapso de autoconsciência. Ela diz: “When you see me, will you say I’ve changed?/I ride the subway, read the signs/I let the seasons change my mind/I love it here, since I’ve stopped needing you”, destrinchando a noção espacial que a náusea da ruptura causa quando descobrimos que existem outros meios, percepções e mundos à nossa volta.

Nos estudos da Teoria da Comunicação, há uma particular [que não chegou a ser uma teoria postulada, mas sim uma corrente de estudos sobre] que estudava justamente os efeitos dos meios de comunicação de massa na sociedade, a chamada Teoria Hipodérmica. Em suma, essa teoria tratava os receptores da mensagem como zumbis, pessoas alienadas, que apenas reproduziam o discurso, sem ao menos questioná-lo. Se considerarmos a ideia do amor romântico como uma grande maneira de sedar e manipular as pessoas e os relacionamentos, Lorde, ao dizer que passou a amar os lugares – geográficos, emocionais e, por que não dizer, sociais – desde que ‘desprecisou’ da pessoa amada, releva que, enquanto receptora da mensagem, seguiu a vida e encontrou uma maneira de questioná-la. Que, quando afetada pela ideia do abandono, da perda e da ode feita às relações românticas, romantizadas e, por vezes, abusivas; conseguiu se desvencilhar e seguir – ainda que com dor, ainda que sozinha. E, para além de seguir a vida, descobriu um meio de entrar ainda mais em si mesma, nos brindando com uma música forte, incisiva e cheia de verdades que não conseguimos, nem gostaríamos de abordar. Porque dançar sozinho no escuro não é questão de maturidade; é saber que a melhor e mais honesta companhia que pode-se ter em momentos árduos como estes é a própria, em sua mais laboriosa plenitude.

Por fim, salientar que nem todo poeta é um fingidor. Que, por vezes, a melhor maneira de fingir é escrevendo, colocando para fora, fazendo música – Lorde é a prova viva disso – e, mais: dando a cara a tapa, ao soco e a tudo que vier. E que por vezes vem forte.

 


Quando dói, quando para e quando volta

Gostar de você, do jeito que foi, nunca foi bom pra mim.

 

Com outras pessoas, outros gostares, o momento de descobrir que eu estava sentindo o que eu estava sentindo era a melhor parte. O início de tudo. O primeiro gosto da substância que dispara a química boa do cérebro, que me fazia ver as luzes, as pequenas explosões, sentir minha pele se dissolvendo, efervescente, dentro do copo d’água.

 

Com você, não. Foi o contrário da anestesia, foi o avesso de ficar chapada. Uma noite eu dormia desavisada e entregue, sua voz soou dentro da minha cabeça e me deu um estalo. Acordei com um susto e depois desse dia nunca mais dormi em paz.

 

Passei a ter insônia, preocupada, como quem fica de vigília de madrugada com medo do que pode surgir do escuro. Morria de terror só de pensar em fechar os olhos e você aparecer nos meus sonhos, me pegar desavisada, me engolir inteira começando pela cabeça, deixando os pés por último. O gelo na espinha, o suor na testa, meus dois olhos arregalados como quem descobre uma gravidez nada planejada ou uma dívida milionária no banco.

 

Fiquei em casa, fechei as janelas, me escondi do mundo e quis tentar te desconhecer. Não deu. Te vi e a corrente elétrica foi demais pra mim. Um choque. Não aguentei.
Esquecer você foi uma dor de dente daquelas que fazem seus ouvidos quererem explodir. Doeram meus olhos, minhas bochechas, minhas têmporas, e daí pra baixo, tudo. Eu doí inteira. Como um tratamento de canal lento, sem anestesia, o motorzinho ligado no volume máximo e eu sem poder me levantar da cadeira e sair correndo, assinar o papel com a secretária, dizer que não quero mais, que fico sem dente, que espero todos caírem e faço um colar. O mundo inteiro era minha cadeira de dentista e eu não tinha permissão pra levantar. Nem mesmo pedir pra parar. Eu só fiquei e aguentei cada minuto.

Até que acabou. Não gradualmente, mas de uma vez só. A dor sumiu como nunca houvesse existido e eu saí da cama, andei na rua, olhei as pessoas e me senti bem por estar aqui. Vi você e meu corpo era pura morfina, dormente, sem sofrer coisa alguma. Um colchão abatendo o golpe mil vezes, mais mil, um milhão. Posso fazer isso, ainda estou aqui e atravessei o que achei que era inatravessável.

Agora, mastigo com cuidado desse lado de cá. Vez ou outra escorrego, um grão de arroz entra no lugar errado e meu corpo treme todo com o trauma que nunca esqueceu. Onde já esteve em carne viva, onde arrastamos aquele braço dilacerado no asfalto áspero e quente por meses a fio, não quisemos cortar de uma vez. O que você fez, o que você disse, o que você foi se tornaram como um membro fantasma pendurado ao lado do meu corpo, e o que você faz, o que você diz e quem você é hoje vivem esbarrando nele sem querer, e mesmo assim eu recolho o braço que não existe mais. Tomo analgésico e anti-inflamatório, todo dia, só por precaução. Vai que volta. Mas não volta. Fiquei imune e sorrio com todos os meus dentes pra mostrar que depois de ir até o inferno, estou viva, sou forte e vou viver pra sempre até morrer dormindo.

 

 

Gabi Machado é recifense, mora em São Paulo e é publicitária, mas no fundo não gostaria de ser definida por nenhuma dessas coisas. Teve mais dificuldades em terminar essa minibiografia do que enfrentaria em textos de mil palavras.


o que eu chamo de amor

One Day, 211, Dir: Lone Scherfig

Eu li o “Um dia” quando ainda era uma adolescente em fase de quase transição pra vida adulta. Acho que eu tinha uns 16 anos, mais ou menos. E eu nunca fui precoce com relacionamentos. Com 16 eu queria era cuidar dos meus estudos e passear por aí com as minhas duas ou três amigas, e não conhecer pessoas, beijar bocas, criar relações longas. Então, eu simplesmente nunca tinha sequer ficado com ninguém. E acho que, por isso, eu não podia entender completamente tudo que esse livro representava.

A história é a de dois amigos que se encontram pela primeira vez na festa de formatura da faculdade: o Dexter e a Emma. E nesse primeiro encontro a gente vê que ela tinha uma visão super idealizada dele: sonhava desde o começo da faculdade, achava lindo e tudo mais. E ele? Sei lá, só tava com vontade de transar com alguém mesmo, pra comemorar essa data, esse marco. Uma relação extremamente desigual, que tinha tudo pra acabar naquele primeiro dia mesmo. Mas não acaba.

Depois da formatura, enquanto a Emma precisa se matar de trabalhar em um restaurante mexicano qualquer, o Dexter pode viajar pra Paris. Ficar com várias menininhas, ser “professor” sem ensinar muita coisa. Mas de alguma forma essas duas pessoas tão diferentes mantêm contato, através de cartas. E depois podem se encontrar pessoalmente, algumas muitas e muitas vezes.

E o livro vai mostrando a vida dos dois ao longo de vinte anos. Como eles nunca se perdem, mesmo que se afastem. Como em um determinado momento a Emma não consegue mais reconhecer o Dexter famoso, viciado em dinheiro, que sai no meio do jantar pra fumar, e acaba dizendo aquela frase marcante: “Eu te amo, mas eu não gosto mais de você”. E como, mesmo assim, depois de tantos desencontros e relacionamentos, fracassos, sucessos, desesperos e recomeços, os dois sempre acabam se reencontrando.

É uma história de amor, sem dúvida. De um amor sincero que consegue resistir a todas as passagens do tempo. A Emma sendo o tipo de amiga que sempre tá por perto, que te alcança em um segundo quando você precisa. O Dexter, muito mais desligado, muito mais distante, muito mais frio emocionalmente. E, ainda assim, alguém que nunca vai embora.

David Nicholls nos ensina que duas pessoas não precisam ser idênticas pra se entender. E, sério, o final do livro é surpreendente, daqueles que te deixa sem palavras e completamente sem reação. Me fez sentir real empatia pelos personagens, ter vontade de estar perto pra vivenciar tudo melhor e poder abraçá-los. E é um dos poucos que me fez chorar um pouquinho.

A primeira vez que eu li foi com 16, mas depois eu reli com 18. E com 19. E nas duas outras vezes eu já tinha ficado com algumas pessoas. O sentimento foi diferente. Eu consegui entender um pouco melhor o amor dos personagens, o que os mantinha unidos apesar dos anos. Mas ainda não foi suficiente.

Porque eu nunca me apaixonei a ponto de viver um relacionamento longo. Eu nunca fui dormir sabendo que no dia seguinte eu teria alguém do meu lado que toparia fazer o que eu quisesse. Alguém que eu pudesse consolar quando estivesse triste, tomar açaí com leite ninho junto e ensiná-lo a gostar das minhas coisas favoritas.

Quando eu tiver, eu vou querer reler o livro. E vou querer que esse alguém leia junto comigo, pra que talvez a gente se inspire a construir a nossa própria história de amor. Mas tão bonita quanto a de Dex e Em.