Faz mal sentir medo?

Antes de tudo, eu quero dizer que tá tudo bem sentir medo. Aliás, esse é um sentimento importante: porque pode preparar para as futuras quedas e até mesmo para os temidos términos que ainda virão. Para a dor, a tristeza, os choros e os fracassos. O problema é quando ele se torna tão forte que passa a impedir até mesmo os começos (e recomeços) somente porque um dia tudo pode sair diferente do planejado. E pode doer.

Digo isso porque vi, de perto, amigos que deixaram de arriscar. Por medo. Mesmo quando o amor construído já era recíproco e tudo que eles queriam era, mais uma vez e quantas vezes fossem necessárias: tentar. Queriam, mas não puderam. Permaneceram exatamente onde estavam porque o conforto do conhecido era mais atraente. E, assim, perderam a chance de viver novas relações, maravilhosas – mas imperfeitas, é claro. Relações que trariam alguns problemas; que mostrariam a necessidade de rever todo o psicológico e descobrir sobre si muito que não gostariam; que implicariam na difícil tarefa de enxergar de perto os defeitos do outro. Mas que compensariam. Pelos aprendizados, por poderem ver-se de uma forma nunca antes vista, por se descobrirem capazes de amar de um jeito completamente novo e viverem experiências únicas.

O que mais pesou na falta de tentativas foi o fato de que existiria o fim. E de que talvez ele fosse doloroso, brutal, impiedoso, deixasse algumas tantas marcas e novas inseguranças. Mas o fato é que, ainda que demorasse, aos poucos ele começaria a ser visto de forma mais tranquila. Não como um sinal de fracasso. Mas como sinal do recomeço que o seguiria. Se reerguer depois de um tropeço é, afinal, ainda mais bonito do que seguir andando em linha reta sem nunca cair.

Não quero dizer que o medo nunca me atrapalhou. É claro que também já perdi várias chances na vida. Deixei de tentar por medo. E não só sobre relacionamentos. Deixei de conversar com alguém porque sentia vergonha. Por medo do que o outro poderia pensar. De mostrar algo que escrevi pra quem tinha escrito. Por medo de que a pessoa não gostasse. De me mostrar como sou, com todas as vulnerabilidades. Por medo de ficar exposta e entregar todos os meus pontos fracos.

Hoje, eu costumo pensar sobre os meus próprios medos. Sobre o que os motiva. Eles têm o seu sentido de existir, sim. Mas quando começam a interferir nas minhas próximas ações e os motivos não parecem assim tão sensatos, quando começo a hesitar por causa desse sentimento; eu o repenso. Na maior parte das vezes decidi continuar. Tentar. Dar uma chance ao desconhecido.

E isso é tudo que eu desejo a você, toda vez que sentir medo: que pare. Pense. Repense. Entenda. Questione-se. Às vezes realmente não vale a pena seguir em frente. Às vezes vale até mais do que você pensava. De qualquer forma, entender suas próprias motivações, o que enxerga como fracasso e os porquês das últimas desistências sempre compensa. Se conhecer é o melhor presente que você pode dar a si mesmo. Isso, eu te garanto: você não pode deixar o medo te impedir de fazer.


Sobre resiliência

Sabe quando, ao esticar um elástico, você pressiona-o até que ele atinja seu limite e depois ele volta à tona, como se aquela pressão não fosse nada demais? Na física, resiliência é justamente a capacidade que alguns materiais têm de irem até seu limite, após sofrerem uma pressão externa grande, e voltarem ao seu estado normal, ilesos. Foi a partir dessa definição que resiliência surgiu em mim, metafórica e materialmente falando. Hoje, carrego ela no peito pra nunca me esquecer que sou capaz de voltar a um estado de bem-estar e de felicidade, ainda que passando pelos piores momentos e situações da vida.

 

Já tive depressão. Tenho crise de ansiedade generalizada e que aparece de tempos em tempos. Sou tímido e tenho dificuldade de falar em público. Nunca fui o mais amado e, longe disso, sempre preferi ficar em silêncio e distante das grandes disputas sociais. Todavia, aprendi na marra, a me desfazer pra, lá na frente, me tornar um ser humano melhor e mais Eu. Acontece que nunca fui de pedir arrego ou me eximir de sentir tudo que a vida me deu. Nunca corri das grandes tempestades que estavam à minha espera. Sempre abracei todas as sensações que podem, e às vezes fazem, eu me contorcer até chegar no meu limite. É na fronteira daquilo que somos que a gente conhece nossa capacidade humana de ir além, de andar um pouquinho mais, de tentar arriscar de novo, de amar novamente, de permitir que a pele queime o que antes estava escondido, de perceber o quão fortes nossos músculos lutaram para ser e, enfim, o quão preparados estamos para o choque.

 

Ninguém numa sala cheia de gente vai dizer que é o mais forte dali. E força, veja bem, não tem nada a ver com o quão resiliente você acha que é, porque resiliência aparece em dias onde a gente acha que já não tem mais saída, em dias em que a gente acha que não daremos conta, que acabou. Ela não é predeterminante, nem está ali o tempo inteiro pra que a gente se gabe de tê-la tão perto. Eu não sabia o que era, de fato, resiliência, até passar por um colapso emocional e conseguir passar por ele sem querer desistir de viver. Foi depois do caminho, da jornada, do momento em que a vida está exercendo a-grande-pressão, que você descobre o quão forte, resiliente e firme seu corpo, sua mente, você pode ser.

 

Resiliência é sobre o caminho. Sobre o momento em que você está sendo pressionado, mas continua vivo, respirando, querendo viver. Quando, no meio da noite, você acha que já não conseguirá levantar na manhã seguinte, para respirar aquele ar maravilhoso que se formou só pra circular pelo seu pulmão, mas mesmo assim dorme, levanta e enfrenta mais um dia. Esse “passar pelo dia” é o que nos transforma em criaturas tão sensacionais, heróicas e históricas. Foi por causa do pelo passar-a-adversidade, que estou aqui. E que você também está. Tem movimento mais sublime que esse? Tem não.

 

E durante o caminho, o atravessar, é que a gente cresce.

 

Em “Comer, rezar, amar”, attraversiamo é a palavra preferida de Liz, personagem interpretada pela Julia Roberts, que significa “vamos atravessar?”. É a palavra/sinal que os italianos usam pra dizer à outra pessoa, antes de atravessar uma rua. É, pra nós, aqui, uma forma de encararmos uns aos outros e ajudar na caminhada. Pois resiliência, como todas as palavras bonitas e cheias de significado da língua portuguesa, não é uma palavra sozinha. Ela vem repleta de significado e movimentação. Quando você entende que sua jornada durante todo-o-processo de crescimento pode ser compartilhada e quando você se permite que as pressões externas não causem tanta dor uma vez que, afinal, existem outros vindo atrás de você, pra passar pelas mesmas ou quase semelhantes situações, e que você é um outro-caminho, não apenas alguém que está passando por ele.

 

Porque resiliência tem disso também. Depois que você passa pelo pior dia, pior estação do ano, pior relacionamento, pior-outras-coisas e  consegue sair vivo, respirando, outras pessoas te olham e percebem que podem, como você, ser fortes e passar. Às vezes a gente precisa, mais do que nunca, de alguém que tenha braveza o suficiente pra passar; pra irmos com ela, logo atrás, e suportar o mundo e a vida puxando, esticando, tirando de nós o máximo que consegue.

 

Eu sei que agora, talvez, você esteja nesse grande momento de passar por algo, alguém ou uma simples rua. Attraversiamo é nossa palavra pra passarmos, com toda coragem e força, por esses dias infinitos, que parecem não acabar nunca. E pelo fracasso de expectativas erradas e grandes demais. E pelas sensações e sentimentos que colocam no nosso peito todos os possíveis pesos que existem no mundo. Eu sei que agora você tá com o olho bem fechado, esperando alguém te dar a mão, pra atravessar.

 

Mas abre o olho. Algo muito grande já está com você.

 

Re-si-li-ên-cia.


escrever é prestar atenção em si mesmo

Durante muito tempo da minha vida de escrita, eu entendi que o outro sempre seria o melhor objeto para se escrever sobre. Ex-namorados, namorados, amigas, conhecidos, todos eles tinham a minha escrita, meu tempo e consideração. Eu gastava horas dizendo o quão felizes, bons, ruins e por aí afora eles foram ou poderiam ser; como me afetavam ou afetariam e minha relação com esses movimentos. Depois de um tempo, no entanto, passei a me questionar por qual razão eu não dava atenção pra mim e pras minhas demandas tanto quanto eu dava pros outros. A resposta foi dura de ouvir.

Sempre fui muito solicito. Adorava fazer as pessoas rirem, queria que elas gostassem de mim espontaneamente e, por esta razão, me esforçava ao máximo para que elas se sentissem confortáveis. Sol em Leão, você sabe, estamos sempre tentando provar o quão incríveis podemos ser. E foi neste caminho de tentar ser muitas coisas, que certa vez tive de me fazer uma pergunta que, sabia, me doeria na hora que pudesse responder: por que você é tão bom pros outros e ruim pra você?

Lembrei, na hora, de um meme que consiste numa caveira correndo com luzes e na legenda da foto os dizeres “eu morto por dentro tentando animar meu redor”. É bem verdade que comecei a me questionar e questionar minha escrita do porquê de dar às pessoas o primeiro plano da minha vida. Do porquê de eu dar esse poder a elas. Do porquê eu continuar escrevendo mais sobre os outros do que sobre mim. Do porquê eu acender as luzes enquanto que internamente estava tudo indo de mal a pior.

Apesar dos questionamentos, continuei escrevendo sobre os mesmos caras de sempre. Aqueles que entravam na minha vida, curtiam minha companhia e no outro dia nada. Eu continuava a colocá-los num palco imaculado, onde só quem escreve é capaz de colocar: você escreve um texto para alguém e eterniza aquele alguém numa página do facebook, no seu perfil pessoal, num livro. E esse alguém, que foi tão mal e ruim, passa a ter um significado muito maior do que era pra ter. Porque é assim que acontece: na vida aparecerão pessoas eternas e pessoas que a gente quer por que quer eternizar. O xis da questão é o tempo que vai passando enquanto perdemos as que não deveríamos perder.

É sempre duro olhar pra si e perceber o quão negligente você é consigo próprio. Que, na verdade, toda essa negligência nada mais é que fruto de uma autoaceitação mutilada por anos; de uma autoconfiança marginalizada, que fica clara quando nos entregamos aos outros sem nos entregar a nós mesmos;, de um amor próprio que ainda não veio.

Percebi, depois de muito escrever sobre os outros, que eu precisava escrever sobre e para mim. Era fundamental que eu olhasse para todas as minhas ansiedades, jugos e culpa e tecesse sobre elas algum comentário, algum apelo. É com esta pessoa que precisamos gastar tempo, energia e tranquilidade: nós. Nós somos a pessoa primordial, nós somos a pessoa a qual a caveirinha precisa alegrar, entreter e cuidar. Quando aceitei isso, passei a ser protagonista, de fato, da minha própria história.

Hoje em dia ainda escrevo sobre os outros. Amigos que foram embora, amores e futuros impregnáveis. Mas também escrevo sobre mim. Para mim. Meu corpo, minhas sensações, meus medos e traumas, meu processo de crescer e amadurecer. De chegar aqui, violado, quebrado e, às vezes, sem fé alguma no que vem.

Quando a gente entende que nosso empenho em tentar tanto pelos outros é uma tentativa falha de fugir de um encontro com nós mesmos, paramos de correr, sentamos na calçada e começamos uma conversa franca sobre o que podemos e devemos mudar. E, graças ao universo, eu parei, senti e me ouvi.

Hoje presto mais atenção em mim. E tem sido incrível me perceber.