Cada perdão acontece no seu tempo

Concedi meu perdão mais doloroso, pra alguém que havia tirado de mim tantas coisas, enquanto fazia academia num dia ordinário do mês de junho. Sim. Nada muito glorioso ou que me demandasse um alto nível de espiritualização ou algo do tipo. Simples assim: enquanto eu fazia abdominal e me permitia pensar na pessoa, percebi que ela não me doía, que toda a minha raiva, tristeza e angústia tinham se esvaído e eu poderia, enfim, estar livre. O perdão, tantas e tantas vezes romantizado, precisa ser compreendido não como uma obrigação ou ultimato para se seguir em frente; ele é e deve ser entendido como uma ponte: quando você atravessa a linha e se sente, finalmente, liberto.

Durante o meu processo de tentar liberar meu perdão, muitas vezes eu caía no erro de racionalizar o porquê de estar entregando aquele movimento pra alguém que já nem fazia mais parte da minha vida. Esse tentar “conceder” uma espécie de sentimento até então bom durou quase um ano até que eu percebi que se não conseguisse entregá-lo estava tudo bem, também. E estava tudo bem porque o perdão não pode ser encarado como um monstro de sete cabeças ou um fantasma que vem nos assustar tarde da noite. Ele é apenas um complemento, a materialização de quando você está tão em paz consigo mesmo que nenhuma sensação que não a de liberdade pode deitar no seu coração.

E o perdão, quando não assimilado de maneira leve, livre e sem pressão, acaba por tornar-se oposto do que, a princípio, ele é. Se você começa a tentar extrair o perdão à força, você vai se esforçar tanto em tentar seguir em frente, tentar se libertar, tentar ficar livre, que acabará lembrando, se afundando e estando mais atado àquilo que está se alimentando de você.

Às vezes, estamos tão empenhados em tirar dos nossos ombros uma história que falhou, algumas palavras que estapearam nosso ego, alguns relacionamentos que sugaram nossa saúde mental e estabilidade física e emocional, que não conseguimos entender que o perdão acontece silenciosamente, quase que por osmose. Você vai vivenciar outras pessoas, coisas, sensações, ruas e risadas. Você vai movimentar sua mente, tentar alcançar seus objetivos, verificar se seus sonhos condizem com o tamanho do travesseiro, se sua jornada tem sido bem trilhada. E aí, quando você estiver caminhando até seu trabalho, num dia completamente normal, num mês que não te anunciou nada, você perceberá: terá ido. Tudo, terá ido. A dor, a raiva, a tristeza, a frustração e a vontade de tentar arrancar à força aquilo que estava em você e não saía.

O perdão pode não vir também. E você aprende a conviver com isso. Porque somos universos diferentes, que reagem de maneira distinta e alinham as emoções de acordo com seus limites. A questão que fica é: não permita que remoer o passado te traga o fardo de não conseguir colocar pra fora o que ficou; ou, ainda, não permita que uma história que te machucou seja motivo de você continuar se machucando e transformando sua vida num objetivo secundário. O processo de perdoar-se é o processo primário e primordial pra que você ande por sua jornada de cabeça erguida, peito leve e coração sadio.

Pra mim, aconteceu quando eu menos esperava. E só veio quando entendi que não precisava ficar remoendo cada diálogo, movimento e palavra que ficou presa na garganta. Aconteceu porque eu havia parado de esperar que viesse. Quando me perdoei por tudo e compreendi o meu percurso até li: eu já estava curado dele, de tudo que tinha me ferido. Como chuva no céu, às vezes o perdão está ali pronto pra aparecer. A gente só precisa sair pra fora de casa e se molhar.


Como se curar de algo ou alguém

Duas semanas atrás entramos numa discussão no twitter sobre o que seria “curar-se de algo ou alguém”. Li muitas respostas tentadoras e muitas, inclusive, que me fizeram pensar ainda mais sobre o que seria limpar a alma, seguir a vida e lembrar sem que doesse tanto. Além disso, tive de perguntar à minha mãe o que pra ela seria cura. No que ela me responde: “cura é quando você lembra e já não dói mais”, simples assim. Sem muito alarde, minha mãe, de maneira simples e sem muito o que racionalizar, me solta essa. Só que pra mim, sempre dói. Teria eu não descoberto, ainda, o que é se curar?

Numa das respostas sobre cura, que seguia o padrão do “lembrar sem que doa”, repliquei perguntando ao seguidor se se eu lembrasse e ainda doesse, poderia chamar aquele movimento de cura também. Porque, no meu caso, penso que cura também é quando consigo olhar para trás, entender todo o meu caminho até aqui, até este estado de cicatrização, e me permitir sentir algumas coisas.

Obviamente que, sim, em algumas vezes somos responsáveis por permitir que alguém, algo ou algum lugar nos afete. Mas, em outras [e são essas vezes que mais doem], mais raras, as coisas têm tanto poder sobre nós que não conseguimos desvencilhar aquela memória e ela dói, lateja e arde. E, quando isso acontece, somos igualmente responsáveis por dizer: “tá tudo bem, você vai doer, mas não fará com que eu volte ou queira voltar; tá tudo bem, vai doer hoje, mas amanhã eu vou ficar bem; tá tudo bem, hoje você pode espremer meu coração, mas amanhã é dia de levantar da mesa e lutar por mim”. Cura, pra mim, depois de muito me questionar e de muito ler sobre, tem a ver, sim, com você olhar para trás e decidir que as coisas não te afetem. Mas, também, é sobre você olhar para trás, ser afetado por elas e seguir.

Muito se fala do poder das outras pessoas sobre nós e sobre como nós reagimos a isso. Pouco se fala, no entanto, no poder que nós temos de criar e desenvolver estratégias para que fiquemos mais confortáveis com nossas próprias escolhas; na força que temos de construir conexão com nosso próprio interior; no nosso poder de dizer não, de nos fazermos fortes e sujeitos de nossas próprias ações.

Cura interior ou exterior, não importa, é exatamente sobre o que cada um decide fazer com a sua dor. À sua maneira, de maneira instintiva ou racional, com mais tempo ou menos tempo, com mais lágrima tarde da noite ou com um sorriso desafiador no dia seguinte: cura é aquela cama confortável que fica te esperando depois de um dia laborioso. É você saber que haverá dias onde conseguirá dormir tranquilamente e que, em outros, nem tanto assim. É regenerar a pele depois do choque e do corte, mas averiguar, todos os dias, colocando a mão nele, que ele ainda permanece ali. É não esquecer, porque esquecer te torna  preguiçoso de saber o que precisa melhorar, o que ainda dói, o que faz de você o que é hoje.

A Adele, em seu processo de cura, canta: olha, dizem que o tempo cura, mas não me sinto curada. E, pra mim, o tempo é só uma ponte: de um Você em estado de choque para um Você em estado de recuperação. E talvez a cura, o regenerar-se, o “costurar a própria pele e permitir que o sol dê um beijo e sare tudo” seja justamente estes, quem sabe, semanas? meses? anos? em que a gente decide começar a entrar dentro da nossa própria pele para construir um horizonte que pode e será incrível, efervescente e muito, muito lindo.


Aos ansiosos

TW: ansiedade

Agora eu escrevo porque a ansiedade está controlada. Talvez, nas minhas épocas piores, em que vivia uma crise atrás da outra, eu mal conseguisse me concentrar o suficiente para dar prosseguimento a esse texto. Nessas horas, eu nem conseguia dar minhas aulas, nem estudar, nem simplesmente passear por aí. A ansiedade me dava coceira nos braços,  suores, batimentos cardíacos acelerados e lágrimas que me escorriam pelos olhos sem motivo aparente. Era difícil viver em estado de nervosismo constante.

Pra mim, é até difícil escrever sobre tudo isso. Esses foram momentos estranhos, de fraqueza extrema, em que o mental afetava o meu corpo a ponto de eu perder uns cinco quilos em uma semana e às vezes achar que não conseguiria andar. Até eu notar que precisava muito, muito, de ajuda. E precisava fazer algo a respeito.

Escrevo pra dizer que entendo você, que também sofre de ansiedade. Seja apenas ocasionalmente, como eu, ou com frequência. Sei como é ter as noites de sono profundamente afetadas pelos pensamentos pessimistas e sentir as inseguranças aumentadas por um sentimento sufocante como esse. E como é perder a fome por um bom tempo e passar dias sem se alimentar direito, porque a comida não desce muito bem. É muito, muito difícil.

Mas talvez só ler isso e saber que você não está sozinho nessas situações já te ajude um tanto. E atualmente é cada vez mais comum encontrar pessoas que sofrem com esses mesmos problemas, ainda que talvez não os nomeiem dessa forma. Muitos até têm vergonha de dizer que já sofreram com doenças psicológicas. Imagino que se sintam vulneráveis, fracos e até mesmo incapazes de superar o problema.

Eu não tenho a capacidade de fazer com que a ansiedade deixe de te incomodar, mas posso te dizer que, no meu caso, foi fundamental me abrir. Mesmo sendo uma atitude muito difícil. Conversar com a minha tia, que me escutou falar e falar (e muito do que eu disse sei que foi incoerente), segurando minha mão pacientemente e me dizendo que eu podia contar com ela, pra tudo, me trouxe alguns momentos de paz. Ouvir meu tio dizer que estava comigo nesse momento me deixou mais tranquila. Outros familiares também me ajudaram nos meus períodos de crises mais constantes.

No meu tratamento, também foi muito importante a terapia. Foi e tem sido libertador dizer tudo que me incomoda sobre mim e também sobre os que estão ao meu redor, externar meus sentimentos e falar abertamente das minhas dores e inseguranças.

Eu não sei como você enxerga tudo isso. Talvez pense que é besteira e que um estranho qualquer não poderia te ajudar tanto assim. Ou, talvez, embora acredite no trabalho dos psicólogos, tenha vergonha de se abrir, pra qualquer um que seja.

Mas faça o teste. Se você não puder arcar com os custos de uma terapia, procure um lugar que ofereça consultas gratuitas. Algumas faculdades atendem a preços muito baixos ou de graça. Provavelmente existe alguma dessas por aí na sua cidade. Vá. Nem que seja pra dizer que não gostou e recuar.

Se você escolher prosseguir com o tratamento, suas crises não vão se curar de um dia pro outro. Suas inseguranças não cessarão em um piscar de olhos. Nem todos os seus medos deixarão de existir. Mas falar sobre tudo o que você sente é essencial, porque vai permitir que você conheça muitos dos seus detalhes, inclusive aqueles que não gosta. E, caso você queira mudar, conhecer aquilo que deseja transformar é o primeiro passo.

No meu caso, em que as crises acontecem em períodos espaçados, me tratar teve um efeito significativo. Desde que comecei a terapia, há alguns meses, não tive mais crises. E tenho me descoberto cada vez mais. Não é simples, confesso, há dias em que não quero me expor e descobrir mais características minhas que não gosto tanto assim. Há momentos em que não quero ser obrigada a lidar com os sentimentos que mantenho mais escondidos em mim. Mas eu faço o esforço. E, sério, depois de um tempo, vejo que coisas que antes me incomodavam tanto já não têm tanta importância. E todo o esforço é recompensado.

Por fim, quero apenas dizer que tenho certeza de que muita gente quer o seu melhor. E que você não é fraco por passar por algum problema psicológico: seja ele depressão, ansiedade ou qualquer outro. No mundo contemporâneo, infelizmente, se tornou rotineiro enfrentar problemas como esses. Mas não podemos, nunca, normalizá-los.

E você, mais do que ninguém, merece todas as suas atenções e cuidados. Então, quando se sentir pronto, dê o primeiro passo pra enfrentar o que quer que você esteja sofrendo. E lembra que essas dores talvez não passem hoje, nem amanhã, nem no mês que vem. Mas, um dia, elas passam.  


Por que é tão importante dizer às pessoas o que você está sentindo

Abraçar nossas fraquezas é a melhor maneira de estabelecer um diálogo sincero com nosso corpo e mente. Dizer a nós mesmos que tá tudo bem chorar no transporte público, escrever textão no facebook sobre como nos sentimos, espernear: estou em carne viva e isso diz muito sobre minha jornada.

Recentemente, assisti a uma palestra no TED de uma escritora nigeriana, Ijeoma Umebinyuo, intitulada “desmantelando a cultura do silêncio”, em que ela aborda a forma como lidamos com nossos traumas, abusos, medos e sentimentos. Segundo ela, falar das nossas dores e abusos é importante porque, assim, conseguimos entender nossa história e aquilo que somos no mundo. Dizer sobre o que nos machucou, em qual parte da jornada você foi ferido e pelo quê, o que te desvelou e o que te soca o estômago, é o primeiro passo para o autoconhecimento, pra uma genuína maneira de experimentar a vida.

O silêncio não beneficia ninguém, pelo contrário, ele continua contribuindo para o círculo vicioso que é sentirmos vergonha das coisas pelas quais passamos, das sensações que brotam em nós cotidianamente, dos sentimentos que não nos permitimos sentir, de tudo que precisamos esconder e que pedem de nós que os chamemos de vergonha. A cultura do silêncio requer e demanda que você delete sua história, que você se esqueça do que passou, dos anos de abuso, das variadas formas de violência e, claro, do caminho percorrido até se tornar sobrevivente.

É a cultura do silêncio que coloca pessoas com depressão dentro de uma caixa escura e diz a elas que não é importante falar de seus problemas. Que é desimportante erguer a voz, o músculo e as pálpebras e gritar: preciso de ajuda. E dessa forma, costurando a boca e a voz, vamos criando tecidos cada vez mais espessos e caindo cada vez mais dentro de um limbo, vazio e extremamente solitário, onde sequer sabem onde nos encontrar. Convencionou-se, durante a história, que tornar público nossos sentimentos e levantar voz sobre o que nos impede de viver uma vida leve é motivo de fraqueza ou, ainda, de não saber sofrer em silêncio.

Quantas vezes já fui pego dizendo a mim mesmo “você precisa carregar esse fardo sozinho; você precisa fazer este percurso sozinho; você não precisa recorrer a ninguém” quando tudo o que eu mais queria, na verdade, era poder chegar até alguém e pedir “por favor, me ajuda a carregar essa história?” ou, ainda, “ei, por favor, eu não estou dando conta!”. A cultura do silêncio é uma forma de opressão ao passo que, em alguns casos, desestabiliza o indivíduo a tal ponto que ele se vê sem saída e acaba piorando até não restar caminho algum que o recupere. E tal fato depura-se quando vemos o índice de pessoas com doenças mentais no país – cresce a cada ano no Brasil.

Falar sobre o que incomoda, buscar ajuda e, principalmente, se expor, é visto com maus olhos e é repreendido pela sociedade num geral que, agora, parece dar sinais de recuperação. Pouco tempo atrás, uma campanha denominada #MeToo convidava mulheres vítimas de abuso a contarem suas histórias. A campanha foi tão forte e comovente que fez parte do discurso flamante da Oprah, ao receber o prêmio de homenageada da noite, na 76ª cerimônia do Golden Globes . Com um discurso efetivo e incisivo, Oprah fez uma ode a todas as mulheres abusadas em todos os âmbitos: de seus locais de trabalho, passando por seus lares, chegando, inclusive, à violência que sofrera Recy Taylor, voltando da igreja.

O discurso de Oprah demonstrou que o poder das nossas histórias – de abusos e violências por parte das mulheres; das depressões e doenças mentais, por parte de pessoas neuroatípicas, de pessoas comuns e normais, que sentem à flor da pele todas as suas emoções – merecem e precisam ser contadas. Diária e cotidianamente. Sem autoflagelos e sem a consciência pesada de estarmos contando sobre nossas vidas, em âmbito realístico ou cibernético. É preciso, mais do que nunca, falarmos sobre aquilo que nos move e mantêm, sobre o que nos afeta e sustenta, sobre o que somos e nunca deixaremos de ser: vivos e humanos.