Existe pessoa certa no tempo errado?

foto: Alkistis Calich

Não existe tempo errado porque ele nunca erra. O tempo é imparável. Irreversível. Independente. Fomos nós quem entramos no meio dele, estabelecendo normas e regras. Nós, quem decidimos repartí-lo em dias, semanas, meses e anos. Nós, quem decidimos se é hora de ficar ou de partir. Quem vem para nos ensinar alguma lição, quem só está aqui pro nosso crescimento.

E aí entramos numa questão ferrenha e que tem vários lados e versões: existe a pessoa certa no tempo errado? Ou, ainda, existe uma pessoa certa? E um tempo certo, será que existe?

Nunca chegaremos, de fato, a uma resposta concreta e incisiva. O que proponho, aqui, é talvez repensarmos algumas questões. A primeira delas: não existe uma pessoa certa. Existe uma pessoa. Certo? Pois se a gente começar etiquetando pessoas em certas e erradas, sem ao menos conhecê-las, estaremos perdendo várias oportunidades: de fazer amigos, colegas, namorados, parceiras, quem sabe? O que pode acontecer, depois de você não perder a oportunidade, é acabar percebendo que não existe conexão emocional, física, mental etc, e aí perceber que, realmente, aquela pessoa – que não é a “errada” – não está na mesma sintonia que você.

Depois, perceber que o tempo é sempre o certo. É sempre o momento certo para aprender e tirar um aprendizado das pessoas com as quais você se relaciona. É injusto e desonesto chegar lá na frente e dizer que todo o caminho percorrido foi dispensável. Nada que nos redima, nos mostre uma saída, nos molde e transforme no melhor é dispensável. Relações falham mesmo, isso todo mundo já sabe. O que precisamos rememorar, entretanto, é que somos bastante, talvez muito, responsáveis pelas relações que começamos. Que o tempo é importante, sim, mas outros fatores transformam as coisas em possíveis ou não. O que a gente precisa ter em mente, também, é que o tempo é constante e está ao nosso favor. Ele não é um professor querendo te reprovar de ano. Ele está ali independente de.

Quando entendemos que não existe a pessoa certa, mas sim pessoas; e quando compreendermos que o tempo não está numa disputa conosco pra nos tirar de jogo, mas sim pra nos mostrar os diferentes caminhos que temos pra encontrar pessoas e nos encontrar, estaremos livres para experimentarmos as relações e a vida como elas são.

Às vezes, e pode acontecer, sim, a conexão entre vocês será a maior e melhor possíveis e as circunstâncias da vida deixarão com que vocês se apartem. Ou, ainda, vocês terão compartilhado tantas coisas e de diferentes formas, até que acabe, por fatores externos, mais poderosos do que a vontade de permanecerem juntos. A vida, também, por vezes contribui para que a gente entenda lá na frente o porquê de algumas reviravoltas. Por qual razão o que pareceria certo, de repente transforma-se em inevitável e fatal. Ainda assim, perder nem sempre é sinônimo de derrota. É na queda brusca que recuperamos o fôlego e somos engajados a lutar novamente.

Por último, gostaria de ressaltar que a gente sempre deve se questionar sobre o que nos faz congelar no tempo. O erro não é acreditar na frase ou tomá-la para si como uma verdade absoluta, mas sim acreditar tanto nisso que nenhum outro movimento é válido que não o de esperar a pessoa certa ou culpar o tempo pelas coisas que não acontecem. Precisamos ser juízes das nossas ações, lutando por aquilo e por quem queremos, como se o tempo fosse aquele amigo do ensino médio que te apoia mas não dá a cola daquela prova que você não estudou. Você não deve amá-lo menos por causa disso.


Espere a tristeza como você espera a chuva: ambas limpam você

A vida não é sobre os que passam ilesos por ela. E ter a capacidade de abraçá-la com todos os seus lados não é uma tarefa fácil, pelo contrário, requer de nós coragem para enfrentá-la e recebê-la de todas as formas que vêm. Às vezes, ela vem em forma de tristeza e ainda é um tabu falar que, sim, a tristeza é um sentimento necessário e componente fundamental para nossa existência.

Em entrevista à revista i-D, o cantor Sam Smith, que segue uma linha musical mais densa igual à Adele, declara que a gente sempre tenta fugir da tristeza e da negatividade, sem compreender que ambas fazem parte de um grande lado da vida. É como se estivéssemos preparados para dar  o-grande-pulo, mas ao mesmo tempo, negássemos que neste grande pulo – para um emprego, uma faculdade, uma relação – podemos enxergar, colocar a mão e sentir o outro lado, o lado que mostra-nos a verdade das coisas, a tristeza como um momento de reflexão.

Fato é que sempre que estamos a um passo da felicidade ou de algo que é grande e fará parte da nossa história (pro bem ou pro mal), nos deparamos com um momento de profunda tristeza e aprendizado. Nada determinista ou maniqueísta, no sentido de que existem coisas boas ou ruins na vida, é só que se a gente tentar olhar com mais clareza pros acontecimentos da nossa existência, perceberemos que é parte essencial de toda vivência passar pela tempestade pra depois experimentar o sabor de um grande céu colorido sobre nós.

Em um texto esclarecedor sobre tristeza, a escritora afro-americana Nayyrah Wahhed diz: “espere a tristeza/como você espera a chuva/ambas limpam você”, referindo-se justamente à ação contrária que fazemos com esse sentimento que, pasmem, existe em nós e está aqui o tempo todo. Entender a complexidade da tristeza e tirar proveito dela, sabendo lidar consigo próprio em situações mais dolorosas ou ciclos que exigem mais, é necessário pra que a gente também consiga olhar o outro lado, o da felicidade, com o vislumbre de quem entende que todas as fases da vida são importantes pro amadurecimento interno e externo.

Nossas células morrem para dar lugar a outras, e desta forma cumprem o mandato de passarem por todas as fases da vida. A primavera precisa aprender que ela dura algumas semanas e que durante o processo de perda das flores, o espetáculo e a beleza que ela emana faz todo o processo do ir-e-vir valer a pena. Por que pra nós, olhar no olho daquela que está ali para nos ensinar e fazer crescer, parece tão duro e impensável?

Sempre fui íntimo de sensações que me pediam mais coração. Ser feliz pra mim sempre foi mais tranquilo e confortável do que ser ou estar triste. Observe: não se trata de cultivar a tristeza ou de fazer um palco, colocá-la lá em cima e adorá-la. Trata-se de reconhecê-la, pegá-la pelos braços, dizer: “olha aqui, eu sei que você existe e vamos conversar sobre isso que está acontecendo”. De maneira honesta, sem negligenciar as emoções que fazem parte do ser humano, sem impedí-la de aparecer e ensinar qualquer coisa. Porque ela ensina e só precisamos nos atentar um pouquinho pra isso.

Se começarmos a entender que tudo sobre nós é aproveitável e merece atenção, tiraremos o melhor que há em cada ciclo, em cada pulo que tentamos, em cada único momento que só viveremos uma vez. Não tem como voltar atrás nesta jornada da vida. Não tem como viver de novo. Não tem como petrificar o ato. O que podemos fazer é não fugir, não retroceder, não esconder a pele pra não sentirmos.

O que devemos fazer é sentir, tirar o melhor e perguntar: “eu evoluí? eu cresci? estou me desenvolvendo?”. Porque a tristeza, bem, a tristeza não é um monstro à espera de pegar você. Ela só é mais um sentimento entre tantos outros, que não visto e trabalhado de perto, pode crescer e deixar marcas indeléveis. E é você quem decide se essa marca vira flor ou ferida. É você.