Existe pessoa certa no tempo errado?

foto: Alkistis Calich

Não existe tempo errado porque ele nunca erra. O tempo é imparável. Irreversível. Independente. Fomos nós quem entramos no meio dele, estabelecendo normas e regras. Nós, quem decidimos repartí-lo em dias, semanas, meses e anos. Nós, quem decidimos se é hora de ficar ou de partir. Quem vem para nos ensinar alguma lição, quem só está aqui pro nosso crescimento.

E aí entramos numa questão ferrenha e que tem vários lados e versões: existe a pessoa certa no tempo errado? Ou, ainda, existe uma pessoa certa? E um tempo certo, será que existe?

Nunca chegaremos, de fato, a uma resposta concreta e incisiva. O que proponho, aqui, é talvez repensarmos algumas questões. A primeira delas: não existe uma pessoa certa. Existe uma pessoa. Certo? Pois se a gente começar etiquetando pessoas em certas e erradas, sem ao menos conhecê-las, estaremos perdendo várias oportunidades: de fazer amigos, colegas, namorados, parceiras, quem sabe? O que pode acontecer, depois de você não perder a oportunidade, é acabar percebendo que não existe conexão emocional, física, mental etc, e aí perceber que, realmente, aquela pessoa – que não é a “errada” – não está na mesma sintonia que você.

Depois, perceber que o tempo é sempre o certo. É sempre o momento certo para aprender e tirar um aprendizado das pessoas com as quais você se relaciona. É injusto e desonesto chegar lá na frente e dizer que todo o caminho percorrido foi dispensável. Nada que nos redima, nos mostre uma saída, nos molde e transforme no melhor é dispensável. Relações falham mesmo, isso todo mundo já sabe. O que precisamos rememorar, entretanto, é que somos bastante, talvez muito, responsáveis pelas relações que começamos. Que o tempo é importante, sim, mas outros fatores transformam as coisas em possíveis ou não. O que a gente precisa ter em mente, também, é que o tempo é constante e está ao nosso favor. Ele não é um professor querendo te reprovar de ano. Ele está ali independente de.

Quando entendemos que não existe a pessoa certa, mas sim pessoas; e quando compreendermos que o tempo não está numa disputa conosco pra nos tirar de jogo, mas sim pra nos mostrar os diferentes caminhos que temos pra encontrar pessoas e nos encontrar, estaremos livres para experimentarmos as relações e a vida como elas são.

Às vezes, e pode acontecer, sim, a conexão entre vocês será a maior e melhor possíveis e as circunstâncias da vida deixarão com que vocês se apartem. Ou, ainda, vocês terão compartilhado tantas coisas e de diferentes formas, até que acabe, por fatores externos, mais poderosos do que a vontade de permanecerem juntos. A vida, também, por vezes contribui para que a gente entenda lá na frente o porquê de algumas reviravoltas. Por qual razão o que pareceria certo, de repente transforma-se em inevitável e fatal. Ainda assim, perder nem sempre é sinônimo de derrota. É na queda brusca que recuperamos o fôlego e somos engajados a lutar novamente.

Por último, gostaria de ressaltar que a gente sempre deve se questionar sobre o que nos faz congelar no tempo. O erro não é acreditar na frase ou tomá-la para si como uma verdade absoluta, mas sim acreditar tanto nisso que nenhum outro movimento é válido que não o de esperar a pessoa certa ou culpar o tempo pelas coisas que não acontecem. Precisamos ser juízes das nossas ações, lutando por aquilo e por quem queremos, como se o tempo fosse aquele amigo do ensino médio que te apoia mas não dá a cola daquela prova que você não estudou. Você não deve amá-lo menos por causa disso.


Espere a tristeza como você espera a chuva: ambas limpam você

A vida não é sobre os que passam ilesos por ela. E ter a capacidade de abraçá-la com todos os seus lados não é uma tarefa fácil, pelo contrário, requer de nós coragem para enfrentá-la e recebê-la de todas as formas que vêm. Às vezes, ela vem em forma de tristeza e ainda é um tabu falar que, sim, a tristeza é um sentimento necessário e componente fundamental para nossa existência.

Em entrevista à revista i-D, o cantor Sam Smith, que segue uma linha musical mais densa igual à Adele, declara que a gente sempre tenta fugir da tristeza e da negatividade, sem compreender que ambas fazem parte de um grande lado da vida. É como se estivéssemos preparados para dar  o-grande-pulo, mas ao mesmo tempo, negássemos que neste grande pulo – para um emprego, uma faculdade, uma relação – podemos enxergar, colocar a mão e sentir o outro lado, o lado que mostra-nos a verdade das coisas, a tristeza como um momento de reflexão.

Fato é que sempre que estamos a um passo da felicidade ou de algo que é grande e fará parte da nossa história (pro bem ou pro mal), nos deparamos com um momento de profunda tristeza e aprendizado. Nada determinista ou maniqueísta, no sentido de que existem coisas boas ou ruins na vida, é só que se a gente tentar olhar com mais clareza pros acontecimentos da nossa existência, perceberemos que é parte essencial de toda vivência passar pela tempestade pra depois experimentar o sabor de um grande céu colorido sobre nós.

Em um texto esclarecedor sobre tristeza, a escritora afro-americana Nayyrah Wahhed diz: “espere a tristeza/como você espera a chuva/ambas limpam você”, referindo-se justamente à ação contrária que fazemos com esse sentimento que, pasmem, existe em nós e está aqui o tempo todo. Entender a complexidade da tristeza e tirar proveito dela, sabendo lidar consigo próprio em situações mais dolorosas ou ciclos que exigem mais, é necessário pra que a gente também consiga olhar o outro lado, o da felicidade, com o vislumbre de quem entende que todas as fases da vida são importantes pro amadurecimento interno e externo.

Nossas células morrem para dar lugar a outras, e desta forma cumprem o mandato de passarem por todas as fases da vida. A primavera precisa aprender que ela dura algumas semanas e que durante o processo de perda das flores, o espetáculo e a beleza que ela emana faz todo o processo do ir-e-vir valer a pena. Por que pra nós, olhar no olho daquela que está ali para nos ensinar e fazer crescer, parece tão duro e impensável?

Sempre fui íntimo de sensações que me pediam mais coração. Ser feliz pra mim sempre foi mais tranquilo e confortável do que ser ou estar triste. Observe: não se trata de cultivar a tristeza ou de fazer um palco, colocá-la lá em cima e adorá-la. Trata-se de reconhecê-la, pegá-la pelos braços, dizer: “olha aqui, eu sei que você existe e vamos conversar sobre isso que está acontecendo”. De maneira honesta, sem negligenciar as emoções que fazem parte do ser humano, sem impedí-la de aparecer e ensinar qualquer coisa. Porque ela ensina e só precisamos nos atentar um pouquinho pra isso.

Se começarmos a entender que tudo sobre nós é aproveitável e merece atenção, tiraremos o melhor que há em cada ciclo, em cada pulo que tentamos, em cada único momento que só viveremos uma vez. Não tem como voltar atrás nesta jornada da vida. Não tem como viver de novo. Não tem como petrificar o ato. O que podemos fazer é não fugir, não retroceder, não esconder a pele pra não sentirmos.

O que devemos fazer é sentir, tirar o melhor e perguntar: “eu evoluí? eu cresci? estou me desenvolvendo?”. Porque a tristeza, bem, a tristeza não é um monstro à espera de pegar você. Ela só é mais um sentimento entre tantos outros, que não visto e trabalhado de perto, pode crescer e deixar marcas indeléveis. E é você quem decide se essa marca vira flor ou ferida. É você.


Aprendi a não me calar

Por muito tempo eu preferi me calar quando alguma situação me incomodava. Mesmo nas minhas relações de amizade, amorosas ou familiares. Eu simplesmente ficava quieta pra evitar que um atrito maior surgisse. Pra ser sincera, ainda me calo muitas vezes. Mas esses últimos meses  me fizeram sentir na pele a importância da honestidade – tanto comigo mesma, quanto com os outros.

Ainda que dizer o que eu verdadeiramente penso tenha trazido à tona comentários como: “você não entende nada da vida” ou “você é nova demais pra opinar sobre isso”, eu me senti realmente satisfeita por expressar meus valores e minhas ideias. Por ter conseguido argumentar a favor do que eu pensava e discordar abertamente de um familiar, mesmo sabendo que essa atitude traria um certo desconforto. Esse incômodo não foi maior do que não dizer nada e me sentir sufocada com as palavras presas.

Outras situações fizeram com que eu manifestasse o que realmente sentia, admitisse o meu ciúme (apesar de não gostar de senti-lo, ele existe e às vezes precisa ser exposto) e procurasse entender o que acontecia e lidar com tudo da melhor forma possível. Eu precisei mesmo dizer. Falar claramente sobre o que me incomodava pra que, assim, a outra pessoa envolvida pudesse repensar suas próprias atitudes e pudéssemos atingir um consenso.

É claro que às vezes seria mesmo melhor ficar calada, porque com certas pessoas sequer vale discutir. Quando alguém está completamente fechado para a argumentação e não se permite abrir-se sequer para ouvir, prefiro mesmo ficar no meu canto, sem me expressar. Mas quando sinto que minha opinião será ao menos considerada, ou que é extremamente importante pra mim me impor quando uma situação me incomoda de maneira extrema, prefiro dizer.

Ainda que discordem de mim. O ponto não é esse. Hoje eu entendo que às vezes preciso simplesmente me abrir, preciso expurgar sentimentos e opiniões pra que elas não causem um desconforto duradouro em determinadas relações. Um desconforto que só cresce, conforme mais momentos de silêncio se multiplicam quando a boca implora pelas palavras.

Então, esse é o melhor conselho que posso te dar hoje. Quando você se sentir muito incomodado com alguém e esses pensamentos passarem a fazer parte do seu dia, sem que você consiga superá-los… diga. Tente conversar. Fale sobre o que sente, exponha suas opiniões. Uma simples conversa será capaz de te trazer um alívio imenso e fazer com que, quem sabe, esses pensamentos insistentes não te incomodem mais.


Você é gentil, você é esperta, você é importante

A primeira imagem que vem à minha cabeça quando penso em amor próprio é da Aibileen, em Histórias cruzadas, dizendo para as filhas de seus patrões: você é gentil, você é esperta, você é importante. Comecei a pensar com afinco que esse tipo de impulso para a construção de um possível  amor próprio, autoestima e autoconfiança eu nunca tive na minha infância e, a partir disso, comecei a me questionar: seria Eu o que sou hoje por falta de conhecer todas essas qualidades em mim? Será que as pessoas se massacram tanto por que nunca tiveram uma Aibileen que lhes dissessem o quão espertas, caridosas e amorosas elas são?

Eu tenho amigas incríveis. Mulheres fortes, competentes, batalhadoras, criativas e sensíveis. E o que mais ouço delas é o quão insuficientes são. Isso me assusta e me assusta saber que há dias em que caio nessa também. E, quando pergunto a elas como foi a construção de vida para que elas chegassem até àquele ponto indefinido, me respondem: que construção? E tem sido frequente o mesmo tipo de diálogo: nossa geração cresceu com pessoas que não ouviram o quão boas, suficientes e brilhantes elas podem ser.

Terminei um único namoro que tive porque em certo momento eu não conseguia olhar pra mim com caridade. Fiz terapia pra tentar resgatar alguma parte da minha infância que talvez estivesse me impedindo de lidar comigo e com os outros; mantive diálogos internos e fui tentando conceber, tardiamente, que, sim, eu era um ser humano incrível. É difícil construir uma ideia boa sobre mim mesmo quando na adolescência a única coisa que fazia era me trancar no quarto e chorar. Infelizmente, conheço muitas pessoas que, assim como eu, nunca tiveram alguém pra construir sobre elas um castelo forte e poderoso, uma autoestima ilesa e uma confiança indomável. E quando entramos nos méritos de se em algum momento fora apresentada uma ideia bonita sobre elas, caímos no mesmo poço de: não, esse processo até aqui foi árduo e doloroso.

Pensa bem: a gente aprende a falar, a escrever, a nos comunicar em todos os âmbitos possíveis, a comer com garfo e faca, a aprimorar nossos instintos pra sobrevivermos no mundo e um monte de outras coisas que, a princípio, parecem indispensáveis. O que não nos é dito, impresso, dialogado e construído é que somos e podemos nos tornar seres humanos incríveis, independentes emocionalmente, fortes em nossas decisões e por aí vai. E se você estiver lendo esse texto, eu pergunto: quantas vezes você ouviu que era especial? Que era a pessoa mais linda do mundo? Que não importava o que acontecesse, alguém estaria ali pra você?

Não me recordo, honestamente. Meus pais nunca tiveram a preocupação de me munir de todo amor-próprio que existia ali pra ser apresentado e eu, quando abri os braços e voei, já não sabia como dizer a mim mesmo o quão bom eu era. Não coloco culpa sobre seus ombros, cada criação é particular e depende de ene fatores, mas penso que tudo o que sou hoje e uma parte considerável de todas as minhas inseguranças vieram de não ser apresentado ou colocado frente a frente do amor-próprio. Nem sabia que isso existia, até ter de voltar meu coração para mim e começar esta jornada difícil e recompensadora que é começar a se amar.

Falo difícil porque amar-se já adulto é similar a quando você começa aprender um novo idioma. A língua não acompanha o cérebro, falta vocabulário, às vezes as frases ficam confusas, o organismo já não aceita aquele novo sistema de comunicação com tanta facilidade assim. Nesse sentido, faltaram Aibileens na minha vida. E na vida de muitas pessoas que conheço e que hoje se sentem destruídas, com a autoestima mutilada por nunca terem tido a oportunidade de serem apresentadas ao amor próprio e a incrível capacidade que ele tem de juntar os caquinhos, de reconstruir, de proteger.

Nayyirah Waheed, escritora afro-americana que descobri meses atrás, resume tudo que até então eu não conseguia desabrochar em palavras. Ela diz: “o medo de ser insuficiente. e o medo de ser demais. é o mesmo medo. o medo de ser você”.

Com isso, Nayyirah equilibra o ponto de fuga que é comum a todo nós: estamos a todo instante tentando provar ou resgatar aquela parte perdida ou que sequer foi construída. Uma parte nossa que é renegada e que muitas vezes é negligenciada. Um pedaço de nós que precisa ser olhado silenciosamente, com a calma de quem, mais à frente, precisará colher os frutos do amor.

Olhar para si mesmo e encontrar tantos medos, frustrações e traumas; e pior, não saber lidar com eles, é o que nos traz aqui. É o que fica na garganta depois que a gente se olha no espelho e não gosta do que vê. É o que vai ficando no meio do caminho, porque raras são as vezes que encontramos alguém pra acender uma luz em nós, pra nos lembrar de que somos bons. Porque às vezes somos nós que precisamos nos ater a esta memória.

Que sejamos bons em lembrar. Pra nossa própria manutenção de vida. E dizer: eu sou lindo, eu sou inteligente, eu sou gentil, eu sou o que quiser ser. E sou.


Alguém que me ensinou a me orgulhar de quem sou

Descobri o canal Tá Querida em uma madrugada qualquer e fiquei mais de uma hora assistindo. A Luiza Junqueira, dona do canal, me chamou atenção desde os primeiros vídeos que assisti: na versão com o cabelo amarelo gritante, aparentando uma confiança extrema e usando roupas que achei super bonitas. Acima de tudo,  pela coragem. Coragem de se despir e, livre de preconceitos em relação ao próprio corpo, fazer uma tour por ele. Mostrando todas as imperfeições, marcas, estrias, celulites, dobras, gorduras… tudo que sai dos padrões e, nem por isso, a deixa menos bonita.

Luiza é uma mulher gorda. E é assim mesmo, sem procurar sinônimos para a palavra “gorda”, que ela se refere a si mesma. Eu tive uma infância e grande parte da adolescência conturbadas, porque também fui gorda. Cheguei a ouvir músicas da elefanta Bila Bilu e gente me dizendo que eu deveria ser bulímica (ainda bem que ignorei os conselhos) para perder uns quilos. Emagreci, sim, me tornando tão diferente fisicamente que mal me reconheço há uns anos atrás. Mas hoje eu entendo que a aceitação do meu corpo precisa ir além dos quilos que a balança aponta. E precisa ser trabalhada, por mim, diariamente, independentemente dos padrões que me são impostos ou do fato de eu não conseguir me encaixar em nenhum deles. É por tudo isso que foi revigorante ver uma mulher forte, satisfeita e cheia de amor pelo próprio corpo, revelando-o exatamente da forma que ele é.

O canal da Luiza vai além das conversas sobre a aparência. Ela ensina receitas rápidas, apresenta sua própria casa e, em conversas com outras mulheres, fala a respeito dos diversos preconceitos e machismos que enfrentou ao longo da vida, simplesmente por ser mulher. Luiza também apresenta seu namorado e um pouco do cotidiano dos dois; ensina a fazer uma saia de tule; mostra suas inúmeras tatuagens e explica o significado de cada uma delas, entre diversos outros vídeos divertidos.

Por fim, deixo aqui um curta dirigido por ela. Nele, três mulheres gordas contam as suas histórias, as suas relações com os seus físicos, os preconceitos que enfrentam diariamente e todas as suas inseguranças por não estarem dentro dos padrões de beleza atuais. Ver tantas pessoas em seus processos de autoaceitação e, além disso, ajudando aqueles que as escutam, me encheu de coragem para continuar o meu. Com os seus vídeos, Luiza me ensina que esse é um caminho longo e árduo mas que vale a nossa insistência. Afinal, nos amar, bem da forma que somos, é uma experiência única.


Rivalidade feminina: pra quê?


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Você já parou pra pensar em quantas vezes um homem traiu a parceira com uma outra mulher e ela foi julgada como a única culpada da situação? Como se tivesse seduzido o homem e ele sequer pudesse resistir aos seus encantos? Já notou que, em uma série de histórias, sejam elas contemporâneas ou mais antigas, uma rivalidade absurda entre as personagens mulheres é criada? Até mesmo em alguns contos de fadas essa competição existe. Por causa de um homem: como acontece em Cinderela. A menina, ridicularizada pelas filhas de sua madrasta, só encontra a realização ao se juntar ao seu príncipe encantado.

Parei pra refletir mais a fundo sobre todas essas questões depois de ver essa conversa entre a Louie e a Maíra, donas de dois canais que gosto muito. O fato é que a gente realmente precisa pensar a respeito dessas questões que, de tão comuns, passaram a ser vistas com normalidade. Quais são os problemas disso tudo? No caso de uma traição, os dois envolvidos têm a sua parcela de culpa. Mas se o seu namorado te traiu, qual é o sentido de querer brigar somente com a mulher que ficou com ele? Ele poderia ter recusado as investidas dela, certo?

Essa tal rivalidade feminina, no fim das contas, vai muito além de relacionamentos afetivos e possíveis disputas pelo mesmo cara, muito abordadas em filmes. Está também na moda. Muitos acreditam que mulheres se vestem apenas para outras mulheres, para impressioná-las ou até mesmo deixá-las com inveja. Mesmo quando, na verdade, as pessoas estão se vestindo somente para si. Para sentirem-se confortáveis com os próprios corpos e com as roupas que escolheram.

E ainda tem mais: muita gente acha estranho que uma mulher “deixe” o namorado sozinho com outras mulheres, ainda que elas sejam suas amigas. Na visão dessas pessoas, tais amigas podem querer “roubá-lo”. Isso não faz o menor sentido, ainda que elas tivessem essa intenção, uma vez que o homem é responsável pelas suas próprias atitudes e capaz de se manter fiel, se assim desejar. Por que, então, você deveria se preocupar com a conduta delas, e não com a decisão dele?

Depois de tanta reflexão, você ainda considera essa rivalidade imposta como natural? Eu não. Acho tudo isso extremamente nocivo. Pra todos nós. Mulheres não precisam ser inimigas, muito pelo contrário. E não existe uma pessoa melhor do que a outra, nem mesmo uma roupa mais bonita. Essas visões são extremamente pessoais. O que eu considero lindo, você pode achar horrível. E vice-e-versa.

Que tal se então, ao invés de insistir em birras despropositadas, a gente simplesmente se unisse? O respeito mútuo, afinal de contas, é muito mais importante do que a “vitória” em qualquer tipo de competição inventada.

 


Cada perdão acontece no seu tempo

Concedi meu perdão mais doloroso, pra alguém que havia tirado de mim tantas coisas, enquanto fazia academia num dia ordinário do mês de junho. Sim. Nada muito glorioso ou que me demandasse um alto nível de espiritualização ou algo do tipo. Simples assim: enquanto eu fazia abdominal e me permitia pensar na pessoa, percebi que ela não me doía, que toda a minha raiva, tristeza e angústia tinham se esvaído e eu poderia, enfim, estar livre. O perdão, tantas e tantas vezes romantizado, precisa ser compreendido não como uma obrigação ou ultimato para se seguir em frente; ele é e deve ser entendido como uma ponte: quando você atravessa a linha e se sente, finalmente, liberto.

Durante o meu processo de tentar liberar meu perdão, muitas vezes eu caía no erro de racionalizar o porquê de estar entregando aquele movimento pra alguém que já nem fazia mais parte da minha vida. Esse tentar “conceder” uma espécie de sentimento até então bom durou quase um ano até que eu percebi que se não conseguisse entregá-lo estava tudo bem, também. E estava tudo bem porque o perdão não pode ser encarado como um monstro de sete cabeças ou um fantasma que vem nos assustar tarde da noite. Ele é apenas um complemento, a materialização de quando você está tão em paz consigo mesmo que nenhuma sensação que não a de liberdade pode deitar no seu coração.

E o perdão, quando não assimilado de maneira leve, livre e sem pressão, acaba por tornar-se oposto do que, a princípio, ele é. Se você começa a tentar extrair o perdão à força, você vai se esforçar tanto em tentar seguir em frente, tentar se libertar, tentar ficar livre, que acabará lembrando, se afundando e estando mais atado àquilo que está se alimentando de você.

Às vezes, estamos tão empenhados em tirar dos nossos ombros uma história que falhou, algumas palavras que estapearam nosso ego, alguns relacionamentos que sugaram nossa saúde mental e estabilidade física e emocional, que não conseguimos entender que o perdão acontece silenciosamente, quase que por osmose. Você vai vivenciar outras pessoas, coisas, sensações, ruas e risadas. Você vai movimentar sua mente, tentar alcançar seus objetivos, verificar se seus sonhos condizem com o tamanho do travesseiro, se sua jornada tem sido bem trilhada. E aí, quando você estiver caminhando até seu trabalho, num dia completamente normal, num mês que não te anunciou nada, você perceberá: terá ido. Tudo, terá ido. A dor, a raiva, a tristeza, a frustração e a vontade de tentar arrancar à força aquilo que estava em você e não saía.

O perdão pode não vir também. E você aprende a conviver com isso. Porque somos universos diferentes, que reagem de maneira distinta e alinham as emoções de acordo com seus limites. A questão que fica é: não permita que remoer o passado te traga o fardo de não conseguir colocar pra fora o que ficou; ou, ainda, não permita que uma história que te machucou seja motivo de você continuar se machucando e transformando sua vida num objetivo secundário. O processo de perdoar-se é o processo primário e primordial pra que você ande por sua jornada de cabeça erguida, peito leve e coração sadio.

Pra mim, aconteceu quando eu menos esperava. E só veio quando entendi que não precisava ficar remoendo cada diálogo, movimento e palavra que ficou presa na garganta. Aconteceu porque eu havia parado de esperar que viesse. Quando me perdoei por tudo e compreendi o meu percurso até li: eu já estava curado dele, de tudo que tinha me ferido. Como chuva no céu, às vezes o perdão está ali pronto pra aparecer. A gente só precisa sair pra fora de casa e se molhar.


Aos ansiosos

TW: ansiedade

Agora eu escrevo porque a ansiedade está controlada. Talvez, nas minhas épocas piores, em que vivia uma crise atrás da outra, eu mal conseguisse me concentrar o suficiente para dar prosseguimento a esse texto. Nessas horas, eu nem conseguia dar minhas aulas, nem estudar, nem simplesmente passear por aí. A ansiedade me dava coceira nos braços,  suores, batimentos cardíacos acelerados e lágrimas que me escorriam pelos olhos sem motivo aparente. Era difícil viver em estado de nervosismo constante.

Pra mim, é até difícil escrever sobre tudo isso. Esses foram momentos estranhos, de fraqueza extrema, em que o mental afetava o meu corpo a ponto de eu perder uns cinco quilos em uma semana e às vezes achar que não conseguiria andar. Até eu notar que precisava muito, muito, de ajuda. E precisava fazer algo a respeito.

Escrevo pra dizer que entendo você, que também sofre de ansiedade. Seja apenas ocasionalmente, como eu, ou com frequência. Sei como é ter as noites de sono profundamente afetadas pelos pensamentos pessimistas e sentir as inseguranças aumentadas por um sentimento sufocante como esse. E como é perder a fome por um bom tempo e passar dias sem se alimentar direito, porque a comida não desce muito bem. É muito, muito difícil.

Mas talvez só ler isso e saber que você não está sozinho nessas situações já te ajude um tanto. E atualmente é cada vez mais comum encontrar pessoas que sofrem com esses mesmos problemas, ainda que talvez não os nomeiem dessa forma. Muitos até têm vergonha de dizer que já sofreram com doenças psicológicas. Imagino que se sintam vulneráveis, fracos e até mesmo incapazes de superar o problema.

Eu não tenho a capacidade de fazer com que a ansiedade deixe de te incomodar, mas posso te dizer que, no meu caso, foi fundamental me abrir. Mesmo sendo uma atitude muito difícil. Conversar com a minha tia, que me escutou falar e falar (e muito do que eu disse sei que foi incoerente), segurando minha mão pacientemente e me dizendo que eu podia contar com ela, pra tudo, me trouxe alguns momentos de paz. Ouvir meu tio dizer que estava comigo nesse momento me deixou mais tranquila. Outros familiares também me ajudaram nos meus períodos de crises mais constantes.

No meu tratamento, também foi muito importante a terapia. Foi e tem sido libertador dizer tudo que me incomoda sobre mim e também sobre os que estão ao meu redor, externar meus sentimentos e falar abertamente das minhas dores e inseguranças.

Eu não sei como você enxerga tudo isso. Talvez pense que é besteira e que um estranho qualquer não poderia te ajudar tanto assim. Ou, talvez, embora acredite no trabalho dos psicólogos, tenha vergonha de se abrir, pra qualquer um que seja.

Mas faça o teste. Se você não puder arcar com os custos de uma terapia, procure um lugar que ofereça consultas gratuitas. Algumas faculdades atendem a preços muito baixos ou de graça. Provavelmente existe alguma dessas por aí na sua cidade. Vá. Nem que seja pra dizer que não gostou e recuar.

Se você escolher prosseguir com o tratamento, suas crises não vão se curar de um dia pro outro. Suas inseguranças não cessarão em um piscar de olhos. Nem todos os seus medos deixarão de existir. Mas falar sobre tudo o que você sente é essencial, porque vai permitir que você conheça muitos dos seus detalhes, inclusive aqueles que não gosta. E, caso você queira mudar, conhecer aquilo que deseja transformar é o primeiro passo.

No meu caso, em que as crises acontecem em períodos espaçados, me tratar teve um efeito significativo. Desde que comecei a terapia, há alguns meses, não tive mais crises. E tenho me descoberto cada vez mais. Não é simples, confesso, há dias em que não quero me expor e descobrir mais características minhas que não gosto tanto assim. Há momentos em que não quero ser obrigada a lidar com os sentimentos que mantenho mais escondidos em mim. Mas eu faço o esforço. E, sério, depois de um tempo, vejo que coisas que antes me incomodavam tanto já não têm tanta importância. E todo o esforço é recompensado.

Por fim, quero apenas dizer que tenho certeza de que muita gente quer o seu melhor. E que você não é fraco por passar por algum problema psicológico: seja ele depressão, ansiedade ou qualquer outro. No mundo contemporâneo, infelizmente, se tornou rotineiro enfrentar problemas como esses. Mas não podemos, nunca, normalizá-los.

E você, mais do que ninguém, merece todas as suas atenções e cuidados. Então, quando se sentir pronto, dê o primeiro passo pra enfrentar o que quer que você esteja sofrendo. E lembra que essas dores talvez não passem hoje, nem amanhã, nem no mês que vem. Mas, um dia, elas passam.  


Por que é tão importante dizer às pessoas o que você está sentindo

Abraçar nossas fraquezas é a melhor maneira de estabelecer um diálogo sincero com nosso corpo e mente. Dizer a nós mesmos que tá tudo bem chorar no transporte público, escrever textão no facebook sobre como nos sentimos, espernear: estou em carne viva e isso diz muito sobre minha jornada.

Recentemente, assisti a uma palestra no TED de uma escritora nigeriana, Ijeoma Umebinyuo, intitulada “desmantelando a cultura do silêncio”, em que ela aborda a forma como lidamos com nossos traumas, abusos, medos e sentimentos. Segundo ela, falar das nossas dores e abusos é importante porque, assim, conseguimos entender nossa história e aquilo que somos no mundo. Dizer sobre o que nos machucou, em qual parte da jornada você foi ferido e pelo quê, o que te desvelou e o que te soca o estômago, é o primeiro passo para o autoconhecimento, pra uma genuína maneira de experimentar a vida.

O silêncio não beneficia ninguém, pelo contrário, ele continua contribuindo para o círculo vicioso que é sentirmos vergonha das coisas pelas quais passamos, das sensações que brotam em nós cotidianamente, dos sentimentos que não nos permitimos sentir, de tudo que precisamos esconder e que pedem de nós que os chamemos de vergonha. A cultura do silêncio requer e demanda que você delete sua história, que você se esqueça do que passou, dos anos de abuso, das variadas formas de violência e, claro, do caminho percorrido até se tornar sobrevivente.

É a cultura do silêncio que coloca pessoas com depressão dentro de uma caixa escura e diz a elas que não é importante falar de seus problemas. Que é desimportante erguer a voz, o músculo e as pálpebras e gritar: preciso de ajuda. E dessa forma, costurando a boca e a voz, vamos criando tecidos cada vez mais espessos e caindo cada vez mais dentro de um limbo, vazio e extremamente solitário, onde sequer sabem onde nos encontrar. Convencionou-se, durante a história, que tornar público nossos sentimentos e levantar voz sobre o que nos impede de viver uma vida leve é motivo de fraqueza ou, ainda, de não saber sofrer em silêncio.

Quantas vezes já fui pego dizendo a mim mesmo “você precisa carregar esse fardo sozinho; você precisa fazer este percurso sozinho; você não precisa recorrer a ninguém” quando tudo o que eu mais queria, na verdade, era poder chegar até alguém e pedir “por favor, me ajuda a carregar essa história?” ou, ainda, “ei, por favor, eu não estou dando conta!”. A cultura do silêncio é uma forma de opressão ao passo que, em alguns casos, desestabiliza o indivíduo a tal ponto que ele se vê sem saída e acaba piorando até não restar caminho algum que o recupere. E tal fato depura-se quando vemos o índice de pessoas com doenças mentais no país – cresce a cada ano no Brasil.

Falar sobre o que incomoda, buscar ajuda e, principalmente, se expor, é visto com maus olhos e é repreendido pela sociedade num geral que, agora, parece dar sinais de recuperação. Pouco tempo atrás, uma campanha denominada #MeToo convidava mulheres vítimas de abuso a contarem suas histórias. A campanha foi tão forte e comovente que fez parte do discurso flamante da Oprah, ao receber o prêmio de homenageada da noite, na 76ª cerimônia do Golden Globes . Com um discurso efetivo e incisivo, Oprah fez uma ode a todas as mulheres abusadas em todos os âmbitos: de seus locais de trabalho, passando por seus lares, chegando, inclusive, à violência que sofrera Recy Taylor, voltando da igreja.

O discurso de Oprah demonstrou que o poder das nossas histórias – de abusos e violências por parte das mulheres; das depressões e doenças mentais, por parte de pessoas neuroatípicas, de pessoas comuns e normais, que sentem à flor da pele todas as suas emoções – merecem e precisam ser contadas. Diária e cotidianamente. Sem autoflagelos e sem a consciência pesada de estarmos contando sobre nossas vidas, em âmbito realístico ou cibernético. É preciso, mais do que nunca, falarmos sobre aquilo que nos move e mantêm, sobre o que nos afeta e sustenta, sobre o que somos e nunca deixaremos de ser: vivos e humanos.

 

 


Faz mal sentir medo?

Antes de tudo, eu quero dizer que tá tudo bem sentir medo. Aliás, esse é um sentimento importante: porque pode preparar para as futuras quedas e até mesmo para os temidos términos que ainda virão. Para a dor, a tristeza, os choros e os fracassos. O problema é quando ele se torna tão forte que passa a impedir até mesmo os começos (e recomeços) somente porque um dia tudo pode sair diferente do planejado. E pode doer.

Digo isso porque vi, de perto, amigos que deixaram de arriscar. Por medo. Mesmo quando o amor construído já era recíproco e tudo que eles queriam era, mais uma vez e quantas vezes fossem necessárias: tentar. Queriam, mas não puderam. Permaneceram exatamente onde estavam porque o conforto do conhecido era mais atraente. E, assim, perderam a chance de viver novas relações, maravilhosas – mas imperfeitas, é claro. Relações que trariam alguns problemas; que mostrariam a necessidade de rever todo o psicológico e descobrir sobre si muito que não gostariam; que implicariam na difícil tarefa de enxergar de perto os defeitos do outro. Mas que compensariam. Pelos aprendizados, por poderem ver-se de uma forma nunca antes vista, por se descobrirem capazes de amar de um jeito completamente novo e viverem experiências únicas.

O que mais pesou na falta de tentativas foi o fato de que existiria o fim. E de que talvez ele fosse doloroso, brutal, impiedoso, deixasse algumas tantas marcas e novas inseguranças. Mas o fato é que, ainda que demorasse, aos poucos ele começaria a ser visto de forma mais tranquila. Não como um sinal de fracasso. Mas como sinal do recomeço que o seguiria. Se reerguer depois de um tropeço é, afinal, ainda mais bonito do que seguir andando em linha reta sem nunca cair.

Não quero dizer que o medo nunca me atrapalhou. É claro que também já perdi várias chances na vida. Deixei de tentar por medo. E não só sobre relacionamentos. Deixei de conversar com alguém porque sentia vergonha. Por medo do que o outro poderia pensar. De mostrar algo que escrevi pra quem tinha escrito. Por medo de que a pessoa não gostasse. De me mostrar como sou, com todas as vulnerabilidades. Por medo de ficar exposta e entregar todos os meus pontos fracos.

Hoje, eu costumo pensar sobre os meus próprios medos. Sobre o que os motiva. Eles têm o seu sentido de existir, sim. Mas quando começam a interferir nas minhas próximas ações e os motivos não parecem assim tão sensatos, quando começo a hesitar por causa desse sentimento; eu o repenso. Na maior parte das vezes decidi continuar. Tentar. Dar uma chance ao desconhecido.

E isso é tudo que eu desejo a você, toda vez que sentir medo: que pare. Pense. Repense. Entenda. Questione-se. Às vezes realmente não vale a pena seguir em frente. Às vezes vale até mais do que você pensava. De qualquer forma, entender suas próprias motivações, o que enxerga como fracasso e os porquês das últimas desistências sempre compensa. Se conhecer é o melhor presente que você pode dar a si mesmo. Isso, eu te garanto: você não pode deixar o medo te impedir de fazer.