Como se curar de algo ou alguém

Duas semanas atrás entramos numa discussão no twitter sobre o que seria “curar-se de algo ou alguém”. Li muitas respostas tentadoras e muitas, inclusive, que me fizeram pensar ainda mais sobre o que seria limpar a alma, seguir a vida e lembrar sem que doesse tanto. Além disso, tive de perguntar à minha mãe o que pra ela seria cura. No que ela me responde: “cura é quando você lembra e já não dói mais”, simples assim. Sem muito alarde, minha mãe, de maneira simples e sem muito o que racionalizar, me solta essa. Só que pra mim, sempre dói. Teria eu não descoberto, ainda, o que é se curar?

Numa das respostas sobre cura, que seguia o padrão do “lembrar sem que doa”, repliquei perguntando ao seguidor se se eu lembrasse e ainda doesse, poderia chamar aquele movimento de cura também. Porque, no meu caso, penso que cura também é quando consigo olhar para trás, entender todo o meu caminho até aqui, até este estado de cicatrização, e me permitir sentir algumas coisas.

Obviamente que, sim, em algumas vezes somos responsáveis por permitir que alguém, algo ou algum lugar nos afete. Mas, em outras [e são essas vezes que mais doem], mais raras, as coisas têm tanto poder sobre nós que não conseguimos desvencilhar aquela memória e ela dói, lateja e arde. E, quando isso acontece, somos igualmente responsáveis por dizer: “tá tudo bem, você vai doer, mas não fará com que eu volte ou queira voltar; tá tudo bem, vai doer hoje, mas amanhã eu vou ficar bem; tá tudo bem, hoje você pode espremer meu coração, mas amanhã é dia de levantar da mesa e lutar por mim”. Cura, pra mim, depois de muito me questionar e de muito ler sobre, tem a ver, sim, com você olhar para trás e decidir que as coisas não te afetem. Mas, também, é sobre você olhar para trás, ser afetado por elas e seguir.

Muito se fala do poder das outras pessoas sobre nós e sobre como nós reagimos a isso. Pouco se fala, no entanto, no poder que nós temos de criar e desenvolver estratégias para que fiquemos mais confortáveis com nossas próprias escolhas; na força que temos de construir conexão com nosso próprio interior; no nosso poder de dizer não, de nos fazermos fortes e sujeitos de nossas próprias ações.

Cura interior ou exterior, não importa, é exatamente sobre o que cada um decide fazer com a sua dor. À sua maneira, de maneira instintiva ou racional, com mais tempo ou menos tempo, com mais lágrima tarde da noite ou com um sorriso desafiador no dia seguinte: cura é aquela cama confortável que fica te esperando depois de um dia laborioso. É você saber que haverá dias onde conseguirá dormir tranquilamente e que, em outros, nem tanto assim. É regenerar a pele depois do choque e do corte, mas averiguar, todos os dias, colocando a mão nele, que ele ainda permanece ali. É não esquecer, porque esquecer te torna  preguiçoso de saber o que precisa melhorar, o que ainda dói, o que faz de você o que é hoje.

A Adele, em seu processo de cura, canta: olha, dizem que o tempo cura, mas não me sinto curada. E, pra mim, o tempo é só uma ponte: de um Você em estado de choque para um Você em estado de recuperação. E talvez a cura, o regenerar-se, o “costurar a própria pele e permitir que o sol dê um beijo e sare tudo” seja justamente estes, quem sabe, semanas? meses? anos? em que a gente decide começar a entrar dentro da nossa própria pele para construir um horizonte que pode e será incrível, efervescente e muito, muito lindo.


Sobre resiliência

Sabe quando, ao esticar um elástico, você pressiona-o até que ele atinja seu limite e depois ele volta à tona, como se aquela pressão não fosse nada demais? Na física, resiliência é justamente a capacidade que alguns materiais têm de irem até seu limite, após sofrerem uma pressão externa grande, e voltarem ao seu estado normal, ilesos. Foi a partir dessa definição que resiliência surgiu em mim, metafórica e materialmente falando. Hoje, carrego ela no peito pra nunca me esquecer que sou capaz de voltar a um estado de bem-estar e de felicidade, ainda que passando pelos piores momentos e situações da vida.

 

Já tive depressão. Tenho crise de ansiedade generalizada e que aparece de tempos em tempos. Sou tímido e tenho dificuldade de falar em público. Nunca fui o mais amado e, longe disso, sempre preferi ficar em silêncio e distante das grandes disputas sociais. Todavia, aprendi na marra, a me desfazer pra, lá na frente, me tornar um ser humano melhor e mais Eu. Acontece que nunca fui de pedir arrego ou me eximir de sentir tudo que a vida me deu. Nunca corri das grandes tempestades que estavam à minha espera. Sempre abracei todas as sensações que podem, e às vezes fazem, eu me contorcer até chegar no meu limite. É na fronteira daquilo que somos que a gente conhece nossa capacidade humana de ir além, de andar um pouquinho mais, de tentar arriscar de novo, de amar novamente, de permitir que a pele queime o que antes estava escondido, de perceber o quão fortes nossos músculos lutaram para ser e, enfim, o quão preparados estamos para o choque.

 

Ninguém numa sala cheia de gente vai dizer que é o mais forte dali. E força, veja bem, não tem nada a ver com o quão resiliente você acha que é, porque resiliência aparece em dias onde a gente acha que já não tem mais saída, em dias em que a gente acha que não daremos conta, que acabou. Ela não é predeterminante, nem está ali o tempo inteiro pra que a gente se gabe de tê-la tão perto. Eu não sabia o que era, de fato, resiliência, até passar por um colapso emocional e conseguir passar por ele sem querer desistir de viver. Foi depois do caminho, da jornada, do momento em que a vida está exercendo a-grande-pressão, que você descobre o quão forte, resiliente e firme seu corpo, sua mente, você pode ser.

 

Resiliência é sobre o caminho. Sobre o momento em que você está sendo pressionado, mas continua vivo, respirando, querendo viver. Quando, no meio da noite, você acha que já não conseguirá levantar na manhã seguinte, para respirar aquele ar maravilhoso que se formou só pra circular pelo seu pulmão, mas mesmo assim dorme, levanta e enfrenta mais um dia. Esse “passar pelo dia” é o que nos transforma em criaturas tão sensacionais, heróicas e históricas. Foi por causa do pelo passar-a-adversidade, que estou aqui. E que você também está. Tem movimento mais sublime que esse? Tem não.

 

E durante o caminho, o atravessar, é que a gente cresce.

 

Em “Comer, rezar, amar”, attraversiamo é a palavra preferida de Liz, personagem interpretada pela Julia Roberts, que significa “vamos atravessar?”. É a palavra/sinal que os italianos usam pra dizer à outra pessoa, antes de atravessar uma rua. É, pra nós, aqui, uma forma de encararmos uns aos outros e ajudar na caminhada. Pois resiliência, como todas as palavras bonitas e cheias de significado da língua portuguesa, não é uma palavra sozinha. Ela vem repleta de significado e movimentação. Quando você entende que sua jornada durante todo-o-processo de crescimento pode ser compartilhada e quando você se permite que as pressões externas não causem tanta dor uma vez que, afinal, existem outros vindo atrás de você, pra passar pelas mesmas ou quase semelhantes situações, e que você é um outro-caminho, não apenas alguém que está passando por ele.

 

Porque resiliência tem disso também. Depois que você passa pelo pior dia, pior estação do ano, pior relacionamento, pior-outras-coisas e  consegue sair vivo, respirando, outras pessoas te olham e percebem que podem, como você, ser fortes e passar. Às vezes a gente precisa, mais do que nunca, de alguém que tenha braveza o suficiente pra passar; pra irmos com ela, logo atrás, e suportar o mundo e a vida puxando, esticando, tirando de nós o máximo que consegue.

 

Eu sei que agora, talvez, você esteja nesse grande momento de passar por algo, alguém ou uma simples rua. Attraversiamo é nossa palavra pra passarmos, com toda coragem e força, por esses dias infinitos, que parecem não acabar nunca. E pelo fracasso de expectativas erradas e grandes demais. E pelas sensações e sentimentos que colocam no nosso peito todos os possíveis pesos que existem no mundo. Eu sei que agora você tá com o olho bem fechado, esperando alguém te dar a mão, pra atravessar.

 

Mas abre o olho. Algo muito grande já está com você.

 

Re-si-li-ên-cia.


livre

Desde pequena eu quis ser livre.

Desde bem nova eu dizia pra minha mãe que eu não queria casar nem ter filhos porque pra mim esse era o maior símbolo da liberdade.

A liberdade era poder correr pra ver o pôr do sol sem ter que atender telefonemas de caras chatos, era poder respirar fundo e encontrar motivos pra continuar não no colo de alguém, mas dentro de mim mesma.

Era poder passar a tarde fora de casa sem precisar dar satisfação e sair pra beber com os meus amigos homens sem ficar com nenhum deles, mas também sem deixar ninguém com ciúmes gratuitos.

E ainda é.

Mas todas as minhas relações sempre muito fracas faliram porque eu pensava que estar junto era estar presa. Que estar verdadeiramente junto seria perder a minha liberdade.

Não faz muito tempo que eu te conheci e você me disse que queria que eu continuasse sendo livre, mesmo sentindo ciúmes. E eu admirei a sua disposição de me oferecer de coração aberto algo que tanto te incomodava. Eu admirei a sua disposição de olhar pro meu jeito e aceitar a minha extroversão e a minha espontaneidade. O meu riso alto e o meu deboche.

E continuei sendo como eu sempre fui, vivendo como eu sempre quis e amando o êxtase de seguir apenas os meus próprios planos.

Sem nunca deixar, mesmo assim, de sonhar com a ternura do seu abraço, me acostumando com a sua presença que me tira um tanto da minha estabilidade e da zona de conforto (que sempre foi justamente não me sentir confortável).

E eu fui vendo que eu nunca deixaria de ser livre. Que eu continuaria saindo pra beber sozinha com os meus amigos homens. Que eu nem sempre avisaria onde eu tô, com quem e por que. Que eu continuaria achando muito irritante precisar acalmar ciúmes desnecessários.

Mas o mais bonito que você me ensinou sobre tudo isso (e talvez a mais bonita de todas as coisas que você me ensinou) é que eu posso ser livre acompanhada. Mesmo que não com você. Mesmo que com outro cara. Eu aprendi que eu posso ser livre sem estar sozinha, mesmo sabendo que a minha presença pura me basta. E sei que esse conhecimento novo transformará todas as minhas relações futuras.

Foi assim, do seu jeito doce (e eu diria até despropositado), que você me mostrou que escolher estar junto, podendo estar só, é a maior liberdade que existe.


eu te amo.

eu te amo.

notei que eu te amava quando o que eu sentia de bom por você se mostrou mais forte do que qualquer um dos meus incômodos.

e quando eu me apaixonei até pelo formato do seu nariz.

eu te amo.

soube quando acordei no meio da noite às 3 da manhã porque seu rosto se misturava aos meus sonhos e eu não conseguia mais dormir.

porque você não estava aqui pra me acalentar nos seus braços e me proteger do resto do mundo.

eu te amo.

senti, quando às 16h52 indo embora da terapia eu tive vergonha e medo do que tinha dito e a única pessoa com quem eu quis conversar foi você.

e enquanto eu era toda urgência e tempestade, você era todo calor de fim de tarde e calmaria.

eu, explosão. você, reconstrução.

eu te amo.

vi quando resolvi insistir em nós mesmo sabendo que a gente queria coisas diferentes e vivia em mundos quase opostos.

que eu precisava da certeza pra acalmar minhas urgências e você precisava do afrouxamento pra continuar com a sua tranquilidade.

e eu queria respostas.

eu queria que você acreditasse que a gente realmente poderia dar certo, além do amor.

que a gente tinha o que bastaria pra querer estar junto, apesar das incompatibilidades.

mas você não conseguiu notar. você não consegue.

ainda assim,

eu te amo.

e talvez, por isso, eu precise ir embora.

porque você merece mais do que alguém que não é capaz de acompanhar o seu ritmo.

você precisa de alguém que não necessite de tantas certezas.

alguém mais parecido contigo, que te permita confiar.

então, talvez eu precise mesmo ir embora.

mas eu não vou mentir dizendo que faço isso apenas por você.

eu também me amo.

e eu me amo mais do que amo você

e, ao menos dessa vez,

eu me coloco em primeiro lugar.


acho que eu me sinto estranha por nunca ter namorado

“acho que eu me sinto estranha por nunca ter namorado.”

eu disse essa frase há umas duas semanas.

porque eu não conseguia aceitar que nunca tivesse conseguido organizar minha vida incluindo um outro alguém,

que eu não tivesse dormido dia sim dia não na casa de algum cara,

que eu não tivesse aprendido a ceder pelo bem de ambos.

como se, pra dar certo, eu precisasse que alguém estivesse ao meu lado.

como se eu não pudesse fazer isso sozinha.

e depois eu parei pra pensar que não.

não importa a pressão que a sociedade cisma em colocar em cima de nós

ou as nossas crenças na ideia pré-concebida de que é impossível ser feliz sozinho.

é possível, sim.

aliás, só é possível ser feliz com o outro se você puder fazer isso sozinho, antes de tudo,

por você mesmo.

só é possível compartilhar as suas partes boas com alguém se você tiver cuidado muito bem de cada uma delas.

eu disse aquela frase há duas semanas, mas desde então não se passou um dia sem que eu pensasse

que não necessito de um relacionamento pra ser estável

e que a responsabilidade por preencher minhas carências é única e exclusivamente minha.

só eu posso me salvar dos abismos que eu mesma inventei.

e eu não quero mesmo salvar mais ninguém.


se tem uma coisa que eu aprendi

se tem uma coisa que eu aprendi depois dos meus muitos relacionamentos mal começados e já fracassados

e das mágoas

das decepções

e das inseguranças,

foi a respeitar as pessoas que passaram pelo meu caminho

e foram embora, cruzando suas vidas com outros que, pra elas, seriam melhores.

porque, de qualquer forma, puderam me ensinar uma coisa ou outra e me presentear com bons momentos, que se tornaram memórias bem cultivadas.

eu aprendi a respeitar depois da perda porque o ódio, a raiva ou a vontade de voltar a estar junto fazia muito mal pra mim – e talvez sequer fizesse diferença pra eles.

porque eles estavam lá, seguindo a vida,

ficando com outras pessoas.

conhecendo outros caminhos e cruzando os seus destinos com outros antes desconhecidos.

eles tavam bem, sabe?

então por que eu pararia a minha própria vida pra sentir mágoa por momentos que já passaram?

por que não perdoar

e ficar presa em relações antigas, sem sequer conseguir me abrir pra novas pessoas?

pra que guardar em mim o gosto das traições – fossem físicas ou não – desconfiando de tudo e de todos?

eu resolvi deixar ir. e é só isso.

de verdade.

com toda a honestidade do mundo, eu não tenho raiva dos abusos

dos choros de madrugada porque eu queria sempre mais do que ele – e insistia mesmo sabendo que não daria certo.

e eu não tenho nojo

dos momentos em que nossos olhares se cruzaram quando eu já não sentia mais nada e soube seguir em frente.

eu só sinto alívio.

e gratidão pelos momentos que

podem ter sido os piores

os mais detestáveis

vindos de pessoas que não tiveram o mínimo de consideração comigo.

mas gratidão.

porque esses momentos me fizeram crescer

a ponto de aprender a perdoar.

não só aos outros,

mas também a mim mesma.


estive aqui semana passada

  1. estive aqui semana passada. você me viu? chovia na cidade e você parecia feliz. eu sentia que estava. a felicidade é um vício, né? quando ama-se alguém, a felicidade é um vício. você acorda na quinta-feira querendo amar ainda mais e a pessoa está lá, ao seu lado da cama, roncando. e você acha aquele ronco o mais bonito da face da terra. de toda a terra. poderiam colocar aquele momento em algum livro de literatura, você pensa. mas é melhor preservá-lo na memória. afinal, a felicidade é uma cócega no coração. e ainda há amor demais para ser compartilhado. estive aqui semana passada.
  2. eu também já fui a pessoa viciada na felicidade. quando estive com um cara meses atrás, costumava costurar meu peito com a risada dele. nada de anormal, para uma geração desesperada por afeto. mas veja bem: eu tentei ser tão feliz, mas tão feliz, que poderia explodir feito fogos de artifício. acabei explodindo nele num dia comum. ele não soube como me segurar nas mãos dele e eu sangrei, sangrei e sangrei até não querer mais. ele me viu ir embora e não fez nada. acredita? nada. aprendi que vícios – em solidão, felicidade, cigarro, qualquer coisa – não te leva a lugar algum. ou até leva. para onde? não sei.
  3. é que existia entre eu e você um deserto gigantesco. não havia como eu aparecer na sua casa e te pedir pra voltar. bom senso, né? eu até que tive muito. mas você não voltou depois de um tempo e eu fiquei me perguntando se havia feito alguma coisa. acho que fiz: te amei. e o problema em amar alguém que não te ama de volta não é a falta de reciprocidade. é o buraco que existe entre a vontade de querer estar com alguém e o não-saber se aquilo ali vai ‘vingar’, ir para frente. com você não foi. mas tudo bem também, a gente só pode agradecer pelo que sente, pela capacidade de ainda brotar fagulha na alma. estive aqui semana passada para desabrochar uma conversa marota no seu peito. iria te dizer que gosto ainda de você, e que segui a vida de coração. você também o fez. e estamos aqui. cada um no seu lado favorito do mundo.

o meu ainda é aquele onde posso ser fogo de artifício.

  1. eu vi você esses dias numa balada. parecia bem e feliz. cheguei à conclusão de que as pessoas podem ser felizes, sim, se não com a gente. porque seria egoísmo querer que elas não fossem felizes pois a ruptura ecoou uma ferida na pele. é preciso, urgentemente, que as pessoas sejam felizes. sem você, principalmente. entende? se alguém é feliz sem você, ela conseguirá, talvez, ser feliz com você.

e lá estava ele, felizão. e eu fiquei feliz também. alguém estava sendo para ele o que eu não havia sido. estava dando o que eu não poderia dar, muito menos doar. alguém fazia cócegas em seus ombros com dedos que eu não possuía. e alguém sussurrava palavras que minha boca não sabia proferir.

  1. estou aqui hoje, como na semana passada. de lá pra cá, pouca coisa mudou. continuo queimando como um vulcão que infla-se para dentro. as chaves do apartamento têm as linhas de expressão de outra história. a minha, nossa, não existe mais, no agora. o tempo é transitório, efêmero e por vezes tardio. esta não é uma história de amor. é uma história de como o tempo é soberano e a vida, passageira. de repente acordar do lado de alguém que você ama já não faz sentido. e o ronco não é poético, mas sim irritante. e o quarto fica pequeno para os dois. estive aqui há pouco tempo

que bom que você se encontrou

a felicidade é um vício. cuidado com ele.


que possamos dar-nos o valor que merecemos

a cobrança se instala no cotidiano na forma de discursos padrões:

“você faz pouco. faça mais. quem você pensa que vai ser na vida se não se esforçar o suficiente? tudo bem, você tem feito mais, mas não basta. não. você precisa fazer o dobro desse dobro que passou a fazer. se reinvente. não basta. estude mais, leia mais. falta profundidade, falta envolvimento. faça mais. você não tem bastado. você precisa correr mais atrás pra ser retribuído, porque existem pessoas mais esforçadas do que você.”

desses discursos comuns, das pressões, das cobranças

que reste em você a confiança de permanecer tentando

e a certeza de que tem feito o melhor de si, apesar opiniões discordantes.

o mundo não seria o mesmo sem a gente, te juro.

nossa energia é única.

e se ninguém mais puder enxergar isso,

que possamos dar-nos o valor que merecemos.


há muito o que se viver

a vida vai reaver sobre você o direito que ela tem de te levar aos lugares mais dolorosos porque assim, e só assim, é que você vai aprender a voar.

sua asa crescerá de tamanho e você conseguirá viajar para longe de casa e da asa da sua mãe.

a vida vai querer de você maturidade para enfrentar a dor da saudade. e vai demandar que você, estando prestes a chorar de angústia, consiga olhar para si mesma e perceber sua aptidão em seguir apesar de.

a vida vai querer de você a compreensão das coisas miúdas. de quando a empatia não é apenas um slogan bonito, mas, sim, uma prática cotidiana e essencial. vai requerer que você consiga ser mais honesta do que o usual, por amor àquilo que você diz acreditar, pelas pessoas que você diz amar.

porque se você ama, você também costura uma verdade sobre os ombros de quem recebe tal sentimento.

a vida vai requerer que você se encontre consigo mesma todas as madrugadas. que revele seu perdão mais tardio para quem merece [afinal, já se passou tanto tempo; e a alma precisa limpar-se] e que, encontrada no próprio perdão, comece a compreender-se humana também. porque teve falhas de ambos os lados e o mundo não merece pessoas amargas pelo carregar de sentimentos pesados.

a vida.

não seus pais. seus amigos. as pessoas pela qual você se apaixonou e que se apaixonaram por você.

é a vida

quem vai querer que você volte e olhe para trás.

que remende aquela parte do seu peito que se perdeu e há tempos você não acha.

que costure a própria pele e emane perdão, paz, solicitude e muito amor.

é a vida quem vai te implorar, assim: “mantenha conversas com si própria, conte a si o que tem havido, por que de tantas feridas adereçadas à pele”

e assim

por diante

a vida. quem vai te olhar nos olhos

exigir mudança.

senão de espaço, de atitude.

porque você precisa se movimentar. caminhar por outros espaços. estender a pele e entender que ainda haverá cicatrizes a se formar

que a dor ainda sentará na mesma cama que você

e que o amor não morre nunca.

ele se apaga.

mas amanhã nasce e brilha de novo.

é a vida quem diz assim: acorda

acorda, é tempo de reaver-se consigo própria.

é tempo de se descobrir apta a existir novamente.

com outra pessoa. ou em si mesma.

com outros caminhos, sonhos e planos.

ou com os mesmos, agora reinventados.

é a vida quem te soca a todo instante

quem provoca um mal-súbito

quem pede. incansavelmente pede: não desiste não.

há muito o que se viver.

e você ainda nem me conhece direito.


a vida nem sempre é

a vida nem sempre é abraço apertado de mãe, carinho nas costas da mão, dormir no meio da tarde.

às vezes é punição, é calor de meio-dia nos dias mais quentes do Rio de Janeiro, é o virar a madrugada fazendo trabalho da faculdade.

ela nem sempre te sorri dizendo que vai ficar tudo bem e que é só um dia, um momento ou um período ruim.

às vezes te faz arder e sentir como se você nunca fosse sair dessa.

cê vai, mas a vida gosta de enganar um pouco as pessoas.

e quando você sentir um nó fechando sua garganta e lágrimas infinitas escorrendo pelos olhos,

ela não vai te pegar no colo ou te aninhar no peito.

ela vai ser meio cruel.

sem te dar garantia nenhuma de que nenhuma dor é infinita.

mas cê vai tirar força de algum lugar dentro de si mesmo pra continuar seguindo por mais que os dias tenham gosto de remédio.

e sempre vai ter um detalhe – uma mensagem, uma aula que você gosta, um passeio na praia no meio da tarde – que vai te lembrar que a vida pode ser um pouco leve mesmo em meio aos caos do cotiano, à correria das provas, ao desespero da ansiedade.

e quando os tempos melhores vierem, você vai saber que passou por tudo isso justamente porque precisava.

a dor te tornará uma pessoa mais madura.

e talvez a vida, nessas horas, até te diga, meio sorrindo, meio brincalhona:

“cê tá vendo? eu nem sou tão ruim assim, quanto você achava.”

e você vai perceber que ainda é capaz de vivenciar

e entender, na pele

o que a felicidade significa.