eu não sou inquebrável

eu não sou inquebrável.

eu gostaria que você tivesse percebido isso ao me invadir com suas palavras e todas essas letras que passaram pela minha garganta com um sabor de depressão.

toda a dor serpenteia meu corpo e eu vivo como uma bomba atômica preste a explodir a cada vez que suas palavras me rasgam.

a vida é tão dura e você quer que eu note isso, não é?
duro é sentir a ponta da faca dentro de mim quando nem se existe algo concreto.
duro é ser o lado negro de uma existência sem rumo.

eu não sou inquebrável.

eu gostaria que você tivesse percebido isso antes da tarde da segunda feira; da noite do domingo ou do amanhecer da sexta.
eu rasguei todos os meus livros e picotei cada pedaço de página como se fosse a minha própria vida,
eu pisei em mim mesma e quebrei minha existência como um espelho velho sem brilho.
eu sou a própria tristeza disfarçada de brooklyn baby e eu espero que você me ame, amor
porque eu não sei fazer isso por mim mesma.

mas eu não sou inquebrável,
e eu me mato toda vez que eu perco meu eu próprio pelo mar de tristezas. eu nado na correnteza ruim, torcendo pra ter sorte nesse jogo de dois que é a vida.

one tree hill diz que a pior morte da vida é aquela enquanto nos vivemos.
você já se perguntou quantas vezes você morreu ao tentar permanecer na escuridão?

eu não sou inquebrável.

eu queria ser inquebrável,
mas eu sou h u m a n a
e essa deve ser a pior dor que existe:
aquela em que seu corpo morre antes de sentir a vida.

(Maria Eduarda Vieira)


eu gosto é do áspero

eu gosto é do áspero
do toque
do íntimo

do que é assustador
do que ninguém vê
do que você esconde, de mim e do mundo
porque você tem medo, eu sei

esses dias me perguntaram se eu sabia a diferença entre amor e paixão
e eu só soube cair no riso

paixão é quando eu me encanto porque você é incrível demais
e porque você é bom
e tem medos bonitos
e eu quero permanecer por isso

mas o amor
ele exige mais
não quero seus medos romantizados, meu bem
nem histórias bonitas de como tu se sente em relação ao mundo
porque eu sei
você tem muito mais que frases decoradas
mais que oi.estou.bem
eu quero conhecer cada ruína sua
e te admirar, como alguém real, não como alguém idealizado

quero te conhecer além da matéria
além da doçura
quero entender o que é amargo em ti.
e permanecer não porque você é bom
ou porque os móveis estão sempre no lugar e a casa arrumada
mas porque você é real.

e eu amo o espaço que você ocupa no mundo sendo você mesmo.

(Laís Cristina)


A palavra saudade não tinha tradução

A palavra saudade não tinha tradução em outras línguas até eu descobrir que era teu nome.

(Jiulie Vitória)


a todos que se doaram, e se doeram

eu te amei quando você achou que não tinha mais ninguém
eu te dei a mão quando todos os outros te deram as costas
eu fiquei mais uma hora quando você me
pediu mais cinco minutos
eu não dormi quando você queria minha companhia, mesmo com uma tela nos dividindo
eu te abracei nos seus dias cansados
eu te beijei nos seus dias caóticos
eu corria
cansava
eu suava
pra te ver
te mandava mensagem de madrugada
pra tu acordar e ter um dia mais bonito
tentava animar os seus dias com as minhas loucuras
eu te contei todos os meus segredos quando você achou que mais ninguém confiava em você
eu te dei o meu tempo
meu colo
e meu calor
eu te escrevi poemas lindos
deitei nos teus braços e prometi ficar
e eu fiquei
te contei piadas
você riu de todas
até das mais ruins
eu nunca me importei com nenhum clima além do nosso
eu não ligava
pro sol escaldante
pra chuva
pro dia nublado
pras matérias acumuladas
pras faltas
os atrasos em outro lugar
ou pro horário que eu tinha que chegar em casa
estar com você me consumia tanto
que eu nem percebia
que a cada dia
eu estava mais perto de você
e muito longe de mim
tu era a minha primeira escolha
e embora tenha sido também o meu primeiro pensamento do dia
hoje eu me afasto
pra passar um tempo comigo
porque mesmo depois de tantas declarações suas
onde está você?
tuas juras de amor
teu jeito clichê
cadê?
eu fiz tudo
por quem não me fez nada
você falou
falou
mas nunca me provou
você foi embora
e eu fiquei
pois agora entendo
que o amor que sinto por mim
tem que vir antes
do que o amor que sinto por outra pessoa
sempre espero que alguém segure a minha mão
mas no fim
sou eu quem me seguro
eu sou meu próprio poema e nunca mais serei coadjuvante da minha própria história
agora eu sou a estrela
a personagem principal
e tudo que fiz por você
agora faço
por mim mesma.

– a todos que se doaram, e se doeram.

(Ingryd Victória)

 


NÃO HAVERÁ EMAIL DE MADRUGADA

Rapazes, eu tenho um talento secreto. Sou ótima pra escrever e-mails
românticos de madrugada. Somente um seleto grupo de cavalheiros tem
acesso a essa biblioteca privada. Mas eu estou aqui pra anunciar que o clube
fechou. Deixem em branco os formulários. Cancelem os boletos bancários.
Rasguem as carteirinhas. O clube fechou por razões sanitárias e de insanidade.
Parei.

Parei de despejar meu coração como leite morno digital. Minha doçura era puro
aspartame. Me dava taquicardia e atormentava os pensamentos, me levando a
construir frases insanas como: “Não deu certo, mas tudo bem. Vamos tentar na
próxima vida.” Mentira. Não tá tudo bem. Você foi péssimo. Por favor, não me
procura na próxima vida. Eu te amei de verdade, mas sério: fica longe de mim.

Parei de planejar minhas palavras como quem arquiteta uma armadilha. Sei
escrever o que vocês querem ouvir. Finjo como uma poetisa de verdade,
acreditando piamente em cada palavra. Sou ótima pra seguir direções, e vocês
as espalham da mesma forma que largam meias sujas pelo chão. “Não consigo
dormir, fico pensando em você.” E quando eu te tenho manso e feliz dentro da
minha gaiola, eu abro a portinha e te deixo sem teto.

Parei de escrever como uma terrorista. Sequestrar atenção com bombas de
sinceridade. Liberar elogios como se fossem reféns. Exigir pelo megafone um
amor incondicional e um helicóptero (porque todo sequestrador que se preze
quer um helicóptero). E quando a fuga falha, eu confo sem tortura, todo meu
amor. Só não consigo dizer o que eu não gosto. Me contorço a cada
eletrochoque, tentando a última barganha: eu faço você se sentir bem consigo
mesmo e você gosta mais de mim.
Ainda bem que nem sempre funciona. Ou agora eu poderia estar no meu barco
de salvação preferido: o relacionamento sério. O clube fechou. Não haverá mais
e-mail de madrugada.

Não haverá revelação. Não haverá confissão. Não haverá
poema de aspartame.
Não é que eu não esteja escrevendo. Listo tudo que eu gosto em um. Dou
replay nos movimentos do outro. Re-significo todas as coisas que me falaram.
Na minha cabeça, vocês são fascinantes, vocês deviam ver. Mas agora, escrevo
tudo isso pra mim. Porque eu não sei outra maneira de entender as partes
obscuras da vida. E o que há de mais obscuro no mundo que o coração de um
homem?

Eu adorava escrever carta. Era só um pedaço de papel mas me embrulhava
pra presente. Me desdobrava como um mapa. Doava todos os meus pertences,
como num testamento. Mas parei. Porque eu não sou um presente, eu não posso me dar. Eu não sou uma guia, eu não posso te levar num passeio turístico pela minha alma. E o testamento, veja bem, eu não morri
ainda. Estou viva e sou uma escritora. Não uma terapeuta.

Então a partir de agora, minha escrita é pelo ofício da escrita. Não pra fazer
homens inseguros, confusos e indisponíveis se sentirem melhores sobre si
mesmos. Parei de trair a minha escrita com vocês. E se os colegas não
conseguem me entender por conta própria, simplesmente significa que nenhum
de vocês é o cara. O cara que um dia vai olhar pra esse emaranhado amorfo e
confuso que eu chamo de coração e dizer, sem pestanejar: é você.

Não haverá atalho. Não haverá fermento. Não haverá carta coringa. Não haverá leite morno pra disfarçar meu gosto amargo, seja corajoso. Parei de me traduzir, seja autodidata. Parei de pregar os benefícios do meu afeto, tenha um pouco de fé. Parei de explicar que eu sou uma boa pessoa. Olha nos meus olhos e você vai saber. Sério, tá
bem aqui.
Parei de tentar me provar.
Prove-se você pra mim.

(Andrea Yagui)


eu nunca acreditei no amor

eu nunca acreditei no amor, nunca fui o tipo de pessoa que se satisfaz com apenas um. nunca me imaginei segurando as mãos de alguém na rua, beijando na frente de conhecidos.

até você chegar.

nunca imaginei que meus calafrios, as minhas mãos suadas, a tremedeira e minha perna balançando, inquieta, seriam causados por alguém. nunca imaginei que o motivo das minhas insônias teria nome.

nome e sobrenome.

tão graciosos.

eu poderia passar o dia inteiro pronunciando-os que não me cansaria.

poderia passar horas e horas imaginando nosso futuro (não que eu já não tenha feito).

poderia olhar no fundo de seus olhos -e eu odeio olhar as pessoas tão profundo assim- e dizer que é tão bom amar você.

poderia.

mas essa palavra indica possibilidade e pela primeira vez na vida eu preciso de uma resposta concreta.

amo incertezas, mas estar contigo sem saber se daremos certo consome meu ser a cada dia. a cada hora, cada minuto.

eu quero você, mas eu não preciso de você.

eu posso ser completa, sozinha.

não hoje, mas talvez amanhã.

é, amanhã parece bom.

e se não amanhã, depois. um dia.

um dia eu serei completa e durante isso eu não preciso que fique ao meu lado alguém que me destrói.

porque eu sou como uma quebra-cabeças de mil peças. complicado. difícil.

vai te dar dor de cabeça, com a mais absoluta certeza.

entretanto, também te dará a satisfação de conseguir encaixar uma peça em outra.

e você já conseguiu montar 500.

minha mais singela pergunta é:

você quer desistir no meio ou continuará montando até o final?

(Júlia França)


eu te prometi que ficaria pra sempre

eu te prometi que ficaria pra sempre.
eu te prometi que te amaria pra sempre.
e, mesmo que eu tenha ido, nenhuma dessas promessas foi mentira. eu continuo com você a cada vez que meu coração se aperta ao passar em frente aos banquinhos no canto da livraria, lembrando daquela vez em que você acariciou minhas costas
eu continuo com você a cada vez que lembro do nosso último beijo apressado no meio das escadas, sem sabermos que seria o último
eu continuo com você a cada vez que passo meus dedos pela minha clavícula no lugar em que você outrora beijou suavemente
eu continuo com você a cada vez que perpasso meu rosto lembrando de como você amava admirá-lo

eu saí da sua vida
e você saiu da minha

mas isso não significa que você tenha ido embora de mim.
você é como aquele morador inesperado que se aloja na propriedade de alguém sem previsão de quando irá embora

e eu acho que só vou conseguir finalmente te deixar pra trás quando entender que você nunca se irá de mim
você faz parte de quem eu sou
já é algo inerente a pessoa que me tornei e não há como viver mais amores sem aceitar que você foi, sim, um deles.
e que seguir em frente não significa apagar uma pessoa da sua memória e fingir que não aconteceu, tampouco seria mentir a si mesmo.
significa abraçar aquelas lembranças com carinho e gratidão e compreender que valeram a pena pelo simples fato de terem te feito bem, em algum ponto.

você me fez feliz por um tempo. eu te encontrei em um momento que eu já não buscava por mais ninguém, e foi além de tudo o que eu esperava quando te conheci. e eu te agradeço por isso. mas agora é hora de ir.

eu te prometi que ficaria pra sempre.
eu te prometi que te amaria pra sempre.
continuo amando, mesmo de longe. porque há certas músicas e lugares e filmes e frases que são incontestavelmente seus. e sempre que eu me deparar com qualquer uma dessas coisas que partilhamos juntos em algum momento,
eu vou lembrar de ti.

por mais que eu não continue mais contigo,
não tento te apagar.
você sempre vai existir em mim.

(Isadora Klauck)


ensaio sobre o perdão

um dia você também irá magoar uma pessoa que ama.

alguma vez você vai deixar a empatia de lado e dizer coisas capazes de ferir o coração de outro alguém. coisas das quais você pode se arrepender muito depois.

você irá refletir e perceber que nem sempre somos nós os que sofrem, às vezes também somos aqueles que causam a dor.

e tá tudo bem. porque nós somos seres imperfeitos tentando viver essa loucura da existência que é se relacionar. estamos constantemente suscetíveis a erros. você não é o único.

um dia você também irá partir um coração. e talvez essa seja uma experiência engrandecedora para te fazer aprender sobre a importância do perdão, porque perdoar é um ato de amor que fazemos pelo outro e por nós mesmos. mas nem sempre as pessoas que irão passar pela sua vida terão consciência disso.

e tá tudo bem, também. pois cada um aceita e abraça o perdão a seu próprio tempo.

esses são aprendizados que muitos demoram uma vida inteira para colocar em prática.

eu ainda estou aprendendo.

um dia você irá magoar uma pessoa que ama, e talvez ela não seja capaz de te perdoar.

precisar do perdão é imprescindível para compreendê-lo. e aceitar o tempo do outro é essencial para perdoar a si mesmo pelo erro cometido.

é necessário que você perceba que se arrependeu, e que seja totalmente claro com aquele que magoou.

mas se mesmo assim o perdão nunca chegar, tudo bem. entenda que nós não podemos desatar as amarras de alguém que não tem a intenção de se libertar.

no fim, você precisará, então, perdoar a si mesmo. porque os nossos arrependimentos podem ser fardos enormes e pesados e nós não precisamos carregá-los para sempre.

ressignifique a sua culpa e transforme-a em algo bom. transforme-a em aprendizado.

perceba que o seu erro do passado serviu como um exercício de autoconhecimento sobre as dores que você não tem a intenção de causar e sentir novamente.

aceite e compreenda os seus próprios ciclos. o perdão não é sinônimo de esquecimento, é um certificado de tranquilidade para seguir em frente.

se você não puder recebê-lo do outro, faça isso por si mesmo.

liberte-se.

Jéssica Barros (Meu desamor)


Vai chegar o dia em que você vai abrir os olhos e não vai mais doer

Vai chegar o dia em que você vai abrir os olhos e não vai mais doer. Quando olhar pras fotos, lembrar daquele almoço de domingo, e do primeiro dia. Não haverá mais a sensação de que um buraco de minhoca fez lar em sua barriga, seguida pelo desespero de desbloquear a tela pra seguir os passos que foram dados sem você, nem o estranhamento suscitado pela ausência.
Você vai ver.
O nome que decorou, aquele, que era viciada em pronunciar — que te deixava mole só de imaginar — não mais vai se destacar de todos os outros, e o rosto pelo qual se afeiçoou antes de descobrir que o que morava do lado dentro requisitava muito mais afeto, não vai mais se triplicar nem replicar em cada esquina, a cada nova multidão.
Quando abrir os olhos na manhã seguinte a noite em que não havia ninguém do seu lado colocando graça em cada centímetro do planeta Terra, vai ser ser o dia um, mais uma vez. Uma nova estação, que não existia antes, quando mãos entrelaçadas não eram apenas um hábito, mas um movimento involuntário natural entre polos de cargas inversas. O toque, o movimento, a presença, eram artefatos que abriam um portal pra um mundo novo, mas que te excluíam da existência, que em seus altos e baixos já era bonita e completa antes dele chegar.
Você vai acordar, menina, e não vai estar mais vazia, porque vai descobrir que a presença dele, enquanto se fez, foi um presente, sim, mas que não foi a melhor coisa que já aconteceu na sua vida, porque você é a melhor coisa que poderia estar acontecendo dentro de ti agora. E quando se der conta disso, não vai precisar esquecer, fingir que não existiu, nem desejar que tudo volte a ser como era, porque, finalmente, vai ter voltado.
Você vai ter voltado pra si mesma.

(Isabelle Costa, da Avalanche Literária)


eu não vou retrucar a sua forma de me amar

eu não vou retrucar a sua forma de me amar.

não vou te implorar que me mande mensagens logo cedo
ou
que me diga “eu te amo” antes de dormir.

não vou brigar contigo quando o meu “se cuida, eu te amo” não tiver nenhuma resposta.

você já me explicou
centenas de vezes;
sumiço é sinônimo de chegada.
(quase sempre.)

e, eu te espero ansiosamente.
é o meu jeito de te amar.

vou entender quando meus textos, nus, não te chamarem atenção, você já me explicou que prefere as palavras ditas.

e por pura maldição
eu só sei deixar que os sentimentos saiam de mim por escrito.

vou passar a enxergar a sua maneira, peculiar, de me amar.

afinal,

você me amou ao notar que meu coração estava acelerado quando te abracei,
você me amou quando se preocupou com as minhas dores de cabeça,
você me amou quando eu senti medo,
você me amou ao me ligar para jogar conversa fora,
você me amou quando me segurou pela cintura e me fez carinhos,
você me amou quando não soube responder os meus imensos textos.
você me amou ao suprir meus vazios.

você me ama,
e isso não é convencimento da minha parte.

mas
você me ama do seu jeito,
e seu jeito não é o meu.

você me ama na ausência das palavras,
e eu te amo no excesso delas.

somos contrários,
forças diferentes,
dissemelhantes,
discrepantes.

você me ama do seu jeito e eu quase nunca entendo.

a culpa não é sua,
eu tenho a mania de padronizar amores.

(Júlia Calazans)