Textos cruéis demais
livre

Desde pequena eu quis ser livre.

Desde bem nova eu dizia pra minha mãe que eu não queria casar nem ter filhos porque pra mim esse era o maior símbolo da liberdade.

A liberdade era poder correr pra ver o pôr do sol sem ter que atender telefonemas de caras chatos, era poder respirar fundo e encontrar motivos pra continuar não no colo de alguém, mas dentro de mim mesma.

Era poder passar a tarde fora de casa sem precisar dar satisfação e sair pra beber com os meus amigos homens sem ficar com nenhum deles, mas também sem deixar ninguém com ciúmes gratuitos.

E ainda é.

Mas todas as minhas relações sempre muito fracas faliram porque eu pensava que estar junto era estar presa. Que estar verdadeiramente junto seria perder a minha liberdade.

Não faz muito tempo que eu te conheci e você me disse que queria que eu continuasse sendo livre, mesmo sentindo ciúmes. E eu admirei a sua disposição de me oferecer de coração aberto algo que tanto te incomodava. Eu admirei a sua disposição de olhar pro meu jeito e aceitar a minha extroversão e a minha espontaneidade. O meu riso alto e o meu deboche.

E continuei sendo como eu sempre fui, vivendo como eu sempre quis e amando o êxtase de seguir apenas os meus próprios planos.

Sem nunca deixar, mesmo assim, de sonhar com a ternura do seu abraço, me acostumando com a sua presença que me tira um tanto da minha estabilidade e da zona de conforto (que sempre foi justamente não me sentir confortável).

E eu fui vendo que eu nunca deixaria de ser livre. Que eu continuaria saindo pra beber sozinha com os meus amigos homens. Que eu nem sempre avisaria onde eu tô, com quem e por que. Que eu continuaria achando muito irritante precisar acalmar ciúmes desnecessários.

Mas o mais bonito que você me ensinou sobre tudo isso (e talvez a mais bonita de todas as coisas que você me ensinou) é que eu posso ser livre acompanhada. Mesmo que não com você. Mesmo que com outro cara. Eu aprendi que eu posso ser livre sem estar sozinha, mesmo sabendo que a minha presença pura me basta. E sei que esse conhecimento novo transformará todas as minhas relações futuras.

Foi assim, do seu jeito doce (e eu diria até despropositado), que você me mostrou que escolher estar junto, podendo estar só, é a maior liberdade que existe.