Com a palavra
o que eu chamo de amor
One Day, 211, Dir: Lone Scherfig

Eu li o “Um dia” quando ainda era uma adolescente em fase de quase transição pra vida adulta. Acho que eu tinha uns 16 anos, mais ou menos. E eu nunca fui precoce com relacionamentos. Com 16 eu queria era cuidar dos meus estudos e passear por aí com as minhas duas ou três amigas, e não conhecer pessoas, beijar bocas, criar relações longas. Então, eu simplesmente nunca tinha sequer ficado com ninguém. E acho que, por isso, eu não podia entender completamente tudo que esse livro representava.

A história é a de dois amigos que se encontram pela primeira vez na festa de formatura da faculdade: o Dexter e a Emma. E nesse primeiro encontro a gente vê que ela tinha uma visão super idealizada dele: sonhava desde o começo da faculdade, achava lindo e tudo mais. E ele? Sei lá, só tava com vontade de transar com alguém mesmo, pra comemorar essa data, esse marco. Uma relação extremamente desigual, que tinha tudo pra acabar naquele primeiro dia mesmo. Mas não acaba.

Depois da formatura, enquanto a Emma precisa se matar de trabalhar em um restaurante mexicano qualquer, o Dexter pode viajar pra Paris. Ficar com várias menininhas, ser “professor” sem ensinar muita coisa. Mas de alguma forma essas duas pessoas tão diferentes mantêm contato, através de cartas. E depois podem se encontrar pessoalmente, algumas muitas e muitas vezes.

E o livro vai mostrando a vida dos dois ao longo de vinte anos. Como eles nunca se perdem, mesmo que se afastem. Como em um determinado momento a Emma não consegue mais reconhecer o Dexter famoso, viciado em dinheiro, que sai no meio do jantar pra fumar, e acaba dizendo aquela frase marcante: “Eu te amo, mas eu não gosto mais de você”. E como, mesmo assim, depois de tantos desencontros e relacionamentos, fracassos, sucessos, desesperos e recomeços, os dois sempre acabam se reencontrando.

É uma história de amor, sem dúvida. De um amor sincero que consegue resistir a todas as passagens do tempo. A Emma sendo o tipo de amiga que sempre tá por perto, que te alcança em um segundo quando você precisa. O Dexter, muito mais desligado, muito mais distante, muito mais frio emocionalmente. E, ainda assim, alguém que nunca vai embora.

David Nicholls nos ensina que duas pessoas não precisam ser idênticas pra se entender. E, sério, o final do livro é surpreendente, daqueles que te deixa sem palavras e completamente sem reação. Me fez sentir real empatia pelos personagens, ter vontade de estar perto pra vivenciar tudo melhor e poder abraçá-los. E é um dos poucos que me fez chorar um pouquinho.

A primeira vez que eu li foi com 16, mas depois eu reli com 18. E com 19. E nas duas outras vezes eu já tinha ficado com algumas pessoas. O sentimento foi diferente. Eu consegui entender um pouco melhor o amor dos personagens, o que os mantinha unidos apesar dos anos. Mas ainda não foi suficiente.

Porque eu nunca me apaixonei a ponto de viver um relacionamento longo. Eu nunca fui dormir sabendo que no dia seguinte eu teria alguém do meu lado que toparia fazer o que eu quisesse. Alguém que eu pudesse consolar quando estivesse triste, tomar açaí com leite ninho junto e ensiná-lo a gostar das minhas coisas favoritas.

Quando eu tiver, eu vou querer reler o livro. E vou querer que esse alguém leia junto comigo, pra que talvez a gente se inspire a construir a nossa própria história de amor. Mas tão bonita quanto a de Dex e Em.