Textos cruéis demais
Sobre resiliência

Sabe quando, ao esticar um elástico, você pressiona-o até que ele atinja seu limite e depois ele volta à tona, como se aquela pressão não fosse nada demais? Na física, resiliência é justamente a capacidade que alguns materiais têm de irem até seu limite, após sofrerem uma pressão externa grande, e voltarem ao seu estado normal, ilesos. Foi a partir dessa definição que resiliência surgiu em mim, metafórica e materialmente falando. Hoje, carrego ela no peito pra nunca me esquecer que sou capaz de voltar a um estado de bem-estar e de felicidade, ainda que passando pelos piores momentos e situações da vida.

 

Já tive depressão. Tenho crise de ansiedade generalizada e que aparece de tempos em tempos. Sou tímido e tenho dificuldade de falar em público. Nunca fui o mais amado e, longe disso, sempre preferi ficar em silêncio e distante das grandes disputas sociais. Todavia, aprendi na marra, a me desfazer pra, lá na frente, me tornar um ser humano melhor e mais Eu. Acontece que nunca fui de pedir arrego ou me eximir de sentir tudo que a vida me deu. Nunca corri das grandes tempestades que estavam à minha espera. Sempre abracei todas as sensações que podem, e às vezes fazem, eu me contorcer até chegar no meu limite. É na fronteira daquilo que somos que a gente conhece nossa capacidade humana de ir além, de andar um pouquinho mais, de tentar arriscar de novo, de amar novamente, de permitir que a pele queime o que antes estava escondido, de perceber o quão fortes nossos músculos lutaram para ser e, enfim, o quão preparados estamos para o choque.

 

Ninguém numa sala cheia de gente vai dizer que é o mais forte dali. E força, veja bem, não tem nada a ver com o quão resiliente você acha que é, porque resiliência aparece em dias onde a gente acha que já não tem mais saída, em dias em que a gente acha que não daremos conta, que acabou. Ela não é predeterminante, nem está ali o tempo inteiro pra que a gente se gabe de tê-la tão perto. Eu não sabia o que era, de fato, resiliência, até passar por um colapso emocional e conseguir passar por ele sem querer desistir de viver. Foi depois do caminho, da jornada, do momento em que a vida está exercendo a-grande-pressão, que você descobre o quão forte, resiliente e firme seu corpo, sua mente, você pode ser.

 

Resiliência é sobre o caminho. Sobre o momento em que você está sendo pressionado, mas continua vivo, respirando, querendo viver. Quando, no meio da noite, você acha que já não conseguirá levantar na manhã seguinte, para respirar aquele ar maravilhoso que se formou só pra circular pelo seu pulmão, mas mesmo assim dorme, levanta e enfrenta mais um dia. Esse “passar pelo dia” é o que nos transforma em criaturas tão sensacionais, heróicas e históricas. Foi por causa do pelo passar-a-adversidade, que estou aqui. E que você também está. Tem movimento mais sublime que esse? Tem não.

 

E durante o caminho, o atravessar, é que a gente cresce.

 

Em “Comer, rezar, amar”, attraversiamo é a palavra preferida de Liz, personagem interpretada pela Julia Roberts, que significa “vamos atravessar?”. É a palavra/sinal que os italianos usam pra dizer à outra pessoa, antes de atravessar uma rua. É, pra nós, aqui, uma forma de encararmos uns aos outros e ajudar na caminhada. Pois resiliência, como todas as palavras bonitas e cheias de significado da língua portuguesa, não é uma palavra sozinha. Ela vem repleta de significado e movimentação. Quando você entende que sua jornada durante todo-o-processo de crescimento pode ser compartilhada e quando você se permite que as pressões externas não causem tanta dor uma vez que, afinal, existem outros vindo atrás de você, pra passar pelas mesmas ou quase semelhantes situações, e que você é um outro-caminho, não apenas alguém que está passando por ele.

 

Porque resiliência tem disso também. Depois que você passa pelo pior dia, pior estação do ano, pior relacionamento, pior-outras-coisas e  consegue sair vivo, respirando, outras pessoas te olham e percebem que podem, como você, ser fortes e passar. Às vezes a gente precisa, mais do que nunca, de alguém que tenha braveza o suficiente pra passar; pra irmos com ela, logo atrás, e suportar o mundo e a vida puxando, esticando, tirando de nós o máximo que consegue.

 

Eu sei que agora, talvez, você esteja nesse grande momento de passar por algo, alguém ou uma simples rua. Attraversiamo é nossa palavra pra passarmos, com toda coragem e força, por esses dias infinitos, que parecem não acabar nunca. E pelo fracasso de expectativas erradas e grandes demais. E pelas sensações e sentimentos que colocam no nosso peito todos os possíveis pesos que existem no mundo. Eu sei que agora você tá com o olho bem fechado, esperando alguém te dar a mão, pra atravessar.

 

Mas abre o olho. Algo muito grande já está com você.

 

Re-si-li-ên-cia.